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domingo, 11 de maio de 2014

«Too Big to Jail» ... (2) por Eric Toussaint







(divulgação)



Estados Unidos: Os abusos dos bancos no setor imobiliário e as ações de despejo ilegais

“Estados Unidos: Os abusos dos bancos no setor imobiliário e as ações de despejo ilegais” é o segundo artigo da série “Os bancos e a doutrina ‘demasiado grandes para serem condenados’” de Eric Toussaint, CADTM.






Parte 1
Durante os anos 2010-2013, as autoridades dos Estados Unidos chegaram a acordo com os bancos para evitar que estes fossem condenados pela justiça no âmbito do escândalo das hipotecas e das ações ilegais de despejo[i]. Para tal, bastou que os bancos pagassem uma simples multa. Desde o início da crise, em 2006-2007, mais de 14 milhões de famílias foram despejadas de suas casas. Pelo menos 500.000 foram ilegalmente despejadas. Muitas vítimas foram apoiadas pelos movimentos sociais, nomeadamente pelo Strike Debt[ii], que reagiram organizando-se para enfrentarem os oficiais de justiça e recusarem os despejos. Milhares de queixas foram apresentadas contra os bancos.
Uma das acusações feita contra os bancos baseia-se na incapacidade de fornecerem documentação que justifique o despejo de proprietários com prestações de empréstimos em atraso. A inexistência de documentação e o grande volume de créditos desse tipo, concedidos no período antes da crise, têm levado os bancos a contratarem pessoal para assinar diariamente dezenas, mesmo centenas, de documentos, aprovando os despejos sem respeitarem os procedimentos legais (é o designadorobot signing ou «assinatura robot»)[iii]. Os bancos levaram a cabo despejos sem justificação económica ou legal em cerca de 500.000 casos (o número final pode aumentar significativamente, porque inclui os resultados de todas as investigações e denúncias realizadas). Apesar dos graves danos causados por práticas bancárias fraudulentas, a multa corresponde, nalguns casos, ao pagamento de um montante inferior a 300 dólares por família afetada[iv], e, noutros casos, atinge entre 1500 e 2000 dólares. Outras acusações feitas contra os bancos dizem respeito à venda de produtos estruturados compostos de créditos hipotecários tóxicos (mortgage backed securities), vendidos, nomeadamente, às empresas públicas de habitação (Freddie Mac e Fannie Mae).
Regresso às políticas que conduziram à crise do subprime
A administração de George W. Bush tinha feito da «sociedade de proprietários» um tema central do seu discurso político: «Estamos a criar uma sociedade de proprietários no nosso país, na qual cada vez mais americanos terão a oportunidade de abrir a porta de sua casa e dizer: “Bem-vindo à minha casa”, “Bem-vindo ao que eu possuo”»[v].
Alan Greenspan confirma, nas suas memórias, logo após o início da crise, em 2007, que havia uma estratégia política na base da atitude adotada pela Reserva Federal de apoio à política de Bush: «Eu estava bem consciente de que o abrandamento do crédito hipotecário aumentava o risco financeiro e que as ajudas à habitação exerciam um efeito distorsivo no mercado. Mas eu considerava também que o aumento do número de proprietários reforçava o apoio ao capitalismo de mercado – vasta questão. Eu achava, e ainda o acho, que os benefícios do alargamento da propriedade imobiliária individual compensavam bem o inevitável crescimento dos riscos. A proteção dos direitos de propriedade, tão essencial a uma economia de mercado, necessita da massa crítica dos proprietários para ganhar apoio político»[vi].
É também necessário mencionar, como veremos nos capítulos seguintes, que as administrações de Bill Clinton e George W. Bush tinham apoiado sistematicamente os principais bancos na sua vontade de se livrarem definitivamente das restrições que pesavam sobre eles, herdadas das medidas de disciplina bancária impostas por Roosevelt nos anos trinta[vii].
O detonador da crise foi a bolha especulativa que antes de rebentar tinha inflacionado o preço do imobiliário[viii] e levado a um aumento desproporcionado do setor da construção em relação à procura efetiva. O número de novas casas disponíveis por ano aumentou de 1,5 milhões em 2000 para 2,3 milhões em janeiro de 2006. Uma proporção crescente de novas habitações deixou de encontrar compradores, apesar das facilidades de crédito concedidas às famílias pelos bancos e do estímulo das autoridades norte-americanas.
Essa superprodução acabou por provocar uma queda brutal do preço do imobiliário. As previsões relativas às famílias que tinham adquirido hipotecas subprime[ix] foram afetadas por essa mudança de circunstâncias. De facto, nos Estados Unidos, as famílias têm a possibilidade e o costume, quando os preços do imobiliário estão em alta, de renegociar após dois ou três anos, com base numa hipoteca que valorizou o seu contrato de empréstimo inicial, a fim de obterem condições mais favoráveis, taxas mais vantajosas. Note-se que no setor dos empréstimos subprime, a taxa dos dois ou três primeiros anos era fraca e fixa, à volta de 3%, enquanto que no terceiro ou quarto ano, não apenas a taxa aumentava de forma consequente (passando a 8 ou 10%), como se tornava também variável e podia, em muitos casos, atingir facilmente 14 ou 15%.
A partir de 2006, quando os preços do imobiliário começaram a cair, as famílias que tinham recorrido aos empréstimos subprime nunca mais foram capazes de renegociar favoravelmente a sua hipoteca a fim de melhorarem as condições.
Como afirma Paul Jorion em A Crise do Capitalismo Americano, os créditos no setor subprime visavam «na realidade aliviar as economias dos infelizes que tentavam aceder ao “sonho” sem na realidade possuírem os meios financeiros para lá chegarem, estando na primeira linha a população negra e da América Latina. As combinações são numerosas, incluem desde contratos com condições escritas diferentes das acordadas verbalmente, até ofertas que visam simplesmente encurralar o candidato na falência e, em seguida, beneficiar da penhora da casa, passando pelos refinanciamentos apresentados como sendo “vantajosos”, mas com condições na realidade calamitosas»[x]
Desde o início de 2007, o não pagamento de empréstimos começou a alastrar. Entre janeiro e agosto de 2007, 84 empresas de hipotecas nos Estados Unidos abriram falência. As empresas e famílias ricas que especulavam, na fase alta, no mercado imobiliário e obtinham lucros copiosos, retiraram-se abruptamente, acelerando assim a queda dos preços. Os bancos que tinham colocado os créditos hipotecários em produtos estruturados e os vendiam em massa (nomeadamente grandes bancos europeus ávidos de rendimento) estiveram no centro da crise.
Assim, o edifício gigantesco das dívidas privadas começou a ruir com o estouro da bolha especulativa do setor imobiliário norte-americano e foi seguido por outras crises do imobiliário na Irlanda, no Reino Unido, em Espanha, em Chipre, em vários países da Europa Central e de Leste e, desde 2011-2012, na Holanda...
Vale a pena mencionar que Nicolas Sarkozy[xi], seguindo os passos de George W. Bush, convidou os franceses a endividarem-se ainda mais. Na edição de abril de 2007 da Revue Banque Sarkozy escrevia: «As famílias francesas são hoje as menos endividadas da Europa. Ora, uma economia que não se endivida suficientemente é uma economia que não acredita no futuro, que duvida dos seus ativos, que teme o amanhã. É por essa razão que eu pretendia desenvolver o crédito hipotecário destinado às famílias e que o Estado interviesse para garantir o acesso ao crédito a pessoas doentes. (...) Se o recurso à hipoteca fosse mais fácil, os bancos focalizavam-se menos na capacidade pessoal de pagamento do devedor e mais no valor do bem hipotecado.»
Pode-se imaginar o que teria acontecido se a crise do subprime não tivesse ocorrido em 2007-2008, e se, de repente, Nicolas Sarkozy continuasse a promover o modelo aplicado nos Estados Unidos...
Entre 2010 e 2013, os grandes bancos dos Estados Unidos pagaram 86 mil milhões de dólares para evitarem condenações
Entre 2010 e finais de 2013, apenas no caso dos créditos hipotecários, ocorreram 26 transações envolvendo várias autoridades dos Estados Unidos e os principais bancos do país[xii].
Todos os grandes bancos dos Estados Unidos estão envolvidos: JPMorgan, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo, Goldman Sachs e Morgan Stanley. No total, desde 2008, aceitaram pagar cerca de 86 mil milhões de dólares para escaparem a condenações em matéria de crédito hipotecário[xiii]. O Bank of America aceitou pagar multas, no total, de aproximadamente 44 mil milhões de dólares, o JPMorgan 26,4 mil milhões de dólares, o Well Fargo 9,5 mil milhões de dólares, o Citigroup 4,7 mil milhões de dólares, o Goldman Sachs um pouco menos de mil milhões de dólares e o Morgan Stanley 330 milhões de dólares. Deve ainda acrescentar-se os honorários pagos a advogados e outras despesas. Para ter um termo de comparação, apenas em 2012, o lucro líquido de seis bancos envolvidos totalizou 59,5 mil milhões de dólares (após o pagamento das multas desse ano, claro). Saíram-se melhor em 2013. Após um desfalque nos seus lucros de 18 mil milhões dólares para fazer face às multas desse ano, os lucros líquidos subiram 21% em 2013, atingindo 74 mil milhões dólares[xiv]. Se esses seis bancos não tivessem de pagar multas, os lucros teriam ultrapassado o recorde histórico atingido em 2006 em plena bolha imobiliária! Isso mostra que essas multas apresentadas publicamente como excepcionalmente pesadas não impedem os banqueiros de brindarem com champanhe enquanto milhões de famílias são vítimas dos seus abusos.
Apesar das provas de fraude e dos abusos cometidos pelo bancos, apesar de milhões de vítimas nas classes populares, nenhuma acusação criminal foi deduzida contra os bancos, nem ninguém foi preso. Os acordos celebrados entre as autoridades e os bancos isentam estes últimos da responsabilidade de responderem financeiramente ou legalmente a acusações semelhantes às que foram deduzidas durante o período anterior[xv]. Cúmulo da ignomínia, ou como dizem os ingleses, «para juntar o insulto à injúria», Jamie Dimon, o patrão do JPMorgan, viu em 2013 o seu salário aumentar 74%, atingindo os 20 milhões dólares[xvi].

Tradução: Maria da Liberdade
Revisão: Rui Viana Pereira



[i] Ver a primeira parte da série: «Os bancos e a doutrina «demasiado grandes para serem condenados”», 9 Março 2014,http://cadtm.org/Os-bancos-e-a-nova...
[ii] Strike Debt, «United States: The Debt Resisters’ Operations Manual», 25 Março 2014, http://cadtm.org/The-Debt-Resisters...
[iii] Democracy Now, «As Wells Fargo is Accused of Fabricating Foreclosure Papers, Will Banks Keep Escaping Prosecution?», 22 Março 2014, http://cadtm.org/As-Wells-Fargo-is-...
[iv] Tyler Durden, «The Banks penalty to put robosigning behind them: 300 dollars per person», 9 Abril 2013,http://www.zerohedge.com/news/2013-...
[v] George W. Bush, 2 Outubro 2004, «Remarks at the National Association of Home Builders», Columbus, Ohio. Citado por Gaël Giraud (2013), p. 21.
[vi] Alan Greenspan, L’Age des Turbulences, Paris, JC Lattès, 2007, p. 304.
[vii] Ver Eric Toussaint, «Comment les banques et les gouvernants détruisent les garde-fous», 13 Janeiro 2014,http://cadtm.org/Comment-les-banque...
[viii] Entre 2001 e 2007, o preço do imobiliário aumentou 100 % nos Estados Unidos.
[ix] Subprime designa empréstimos hipotecários mais arriscados para o credor (mas com melhor rendimento) do que a categoria prime, especialmente por designar um certo tipo de crédito hipotecário.
[x] Paul Jorion, «Inédit: les 3 premières pages de «la crise du capitalisme américain» (2007), publicado a 23 Fevereiro 2012,http://www.pauljorion.com/blog/?p=34264
[xi] Nicolas Sarkozy, político de direita, presidiu à República francesa de 2007 a 2012.
[xii] SNL, «Timeline Credit crisis and mortgage-related settlements» http://www.ababj.com/images/Dev_SNL... consultado a 22 fevereiro 2014.
[xiii] SNL, «Credit crisis and mortgage-related settlements for select bank holding companies»http://www.ababj.com/images/Dev_SNL... consultado a 22 fevereiro 2014.
[xiv] Bloomberg, «Big Six U.S. Banks’ 2013 Profit Thwarted by Legal Costs», 9 Janeiro 2014,http://www.bloomberg.com/news/2014-... Ver também Thinkprogress, «Profits At The Biggest Banks Bounce Back To Post-Crisis Record High», 21 janeiro 2014, http://thinkprogress.org/economy/20...
[xv] Entre as vozes críticas, ler Huffingtonpost, «The Top 12 Reasons Why You Should Hate the Mortgage Settlement», 2 setembro 2012, http://www.huffingtonpost.com/yves-...
[xvi] Financial Times, «Dimon’s pay soars 74 % to $20m», 25-26 Janeiro 2014.
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Sobre o/a autor(a)

Eric Toussaint
Politólogo. Presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo






(Os destaques, a azul, são da minha responsabilidade)



- A partir de: Esquerda.net






segunda-feira, 21 de abril de 2014

«Too Big to Jail» ... por Eric Toussaint






(divulgação)




Os bancos e a nova doutrina «Too Big to Jail»

O facto de a especulação e os crimes financeiros terem causado a pior crise económica desde o século passado pesa muito pouco na balança da justiça.



É bem conhecida a máxima: «Demasiado grandes para falirem» («Too Big To Fail»). A forma como os governos geriram a crise provocada pelos bancos acabou por dar origem a uma nova doutrina que se pode resumir assim: «Demasiado grandes para serem condenados» |1|; ou «Demasiado grandes para serem presos», traduzindo à letra o novo adágio que floresce nos EUA e no Reino Unido: «Too Big to Jail» |2|, que rima com «Too Big to Fail». De facto, embora o governo dos EUA tenha deixado o Lehman Brothers falir, nenhum banco foi encerrado |3| ou desmantelado por decisão judicial, nenhum dirigente da banca foi condenado a uma pena de prisão. A única excepção no mundo ocidental vem da Islândia, onde a justiça condenou a penas de prisão três dirigentes da banca. Larus Welding, principal dirigente do banco Glitnir, que faliu em 2008 quando era o terceiro banco do país, foi condenado em finais de Dezembro de 2012 a nove meses de prisão. Sigurdur Einarsson e Hreidar Mar Sigurdsson, os dois principais dirigentes do banco Kauphing |4|, foram condenados respectivamente a cinco e cinco anos e meio de prisão em Dezembro de 2013 |5|.
No entanto, a justiça norte-americana e a europeia vêem-se confrontadas com delitos muito graves cometidos pelos maiores bancos: burla organizada contra clientes, os (pequenos) accionistas e os accionistas públicos, branqueamento de dinheiro proveniente do crime organizado, organização sistemática de fraude fiscal em grande escala, manipulação organizada das taxas de juro (Libor, Euribor, …), manipulação organizada dos mercados cambiais, falsificação de documentos, abuso de informação privilegiada, destruição de provas, enriquecimento ilegítimo, manipulação organizada do mercado de CDS, manipulação do mercado físico de commodities, cumplicidade em crimes de guerra |6|… e não acaba aqui a lista.
Eric Holder, procurador-geral dos EUA, quando inquirido em Junho de 2013 por uma comissão do Senado do seu país, resumiu claramente o fundamento da doutrina «Demasiado grandes para serem condenados». Declarou ele a propósito dos grandes bancos que «essas instituições são tão grandes que se torna difícil submetê-las à justiça, e se o fizéssemos, dar-nos-íamos conta que efectivamente inculpá-los de actividades criminosas poderia ter repercussões negativas na economia nacional, ou mesmo mundial» |7|.
As consequências desta posição são claras. O facto de a especulação e os crimes financeiros terem causado a pior crise económica desde o século passado pesa muito pouco na balança da justiça. Apesar de esses excessos estarem associados a uma epidemia de fraudes |8|, a todos os níveis das operações dos bancos dos EUA, essas instituições estão autorizadas a prosseguir as suas operações. Basta-lhes entrar num acordo com a justiça a fim de pagarem uma multa para evitarem uma condenação. Imaginem a seguinte situação: após um mês de investigação, a polícia descobre que uma certa pessoa roubou um milhão de euros. Essa pessoa, no momento em que é detida, declara ao juiz de instrução e à polícia: «Proponho pagar 2000 euros de multa e vocês deixam-me ir em liberdade e não fazem avançar o processo. De acordo?» O juiz e o polícia dizem-lhe: «Ok, não há problema, e desculpe o incómodo. Boa continuação. Faça por não ser apanhado da próxima vez, está bem?» O tratamento de favor ao qual têm direito os bancos responsáveis por delitos e crimes financeiros em nada difere desta situação imaginária e Bertold Brecht tinha toda a razão em perguntar: «Quem é o maior criminoso: aquele que rouba um banco ou aquele que funda um banco?» |9|.
As consequências directas das malfeitorias dos bancos são particularmente graves: 14 milhões de famílias nos EUA foram expulsas das suas habitações entre 2007 e 2013 (ver quadro abaixo), entre as quais se estima que pelo menos 495.000 tenham sido desalojadas de forma perfeitamente ilegal |10|, milhões de pessoas perderam o emprego, uma parte das quais caiu abaixo do limiar de pobreza, a dívida pública explodiu e os fundos de pensões dos países desenvolvidos perderam perto de 5,4 biliões de dólares |11|.
Penhoras imobiliárias nos Estados Unidos e em Espanha

EUA
Espanha
2005
532.833
2006
717.522
2007
1.285.873
2008
2.330.483
49.848
2009
2.824.674
59.632
2010
2.871.891
81.747
2011
1.887.777
94.825
2012
1.836.634
76.724
Total
14.287.687
362.776


Fontes: Para os EUApara Espanha.



O papel dos bancos privados é manifestamente tão importante e indispensável ao sistema capitalista, que o seu funcionamento transcende os constrangimentos legais e constitucionais das sociedades modernas. Daí que a justiça olhe para o lado quando colocada perante delitos e crimes cometidos pelos bancos e seus dirigentes, a fim de não ter de condená-los nem que seja a um só dia de prisão. Trocado por miúdos: não podemos processar um dirigente duma instituição bancária, que «se limita a fazer o trabalho de Deus» |12|, para citar Lloyd Blankfein, patrão da Goldman Sachs.
A declaração que acabamos de transcrever seria caso para rir se não se desse o caso de as relações entre os bancos e as autoridades judiciais ou de controlo confirmarem regularmente a aplicação da doutrina «demasiado grandes para serem condenados», dos dois lados do Atlântico. Os casos sucedem-se e a justiça teima em passar multas que geralmente representam uma ínfima parte dos proveitos das actividades ilegais, sem que algum dirigente seja molestado. Quando muito comparecem perante os tribunais uns testas de ferro como Jérôme Kerviel, mas nunca os patrões que os incentivaram a aumentar os lucros da empresa recorrendo a todas as tramóias possíveis e imagináveis.
Seis exemplos bastam para testemunhar a situação actual:
  • 1. Os acordos entre os bancos dos EUA e diferentes autoridades do país a fim de evitar uma condenação em tribunal no caso dos empréstimos hipotecários abusivos e dos despejos ilegais de habitação (foreclosures);
  • 2. O HSBC (1º banco britânico) sujeito a multa nos EUA por branquear dinheiro dos cartéis mexicanos e colombianos da droga;
  • 3. A manipulação das taxas de juro interbancário e das taxas sobre os derivados, conhecida por «caso Libor»;
  • 4. O escândalo dos «empréstimos tóxicos» em França;
  • 5. As actividades ilegais do Dexia em Israel;
  • 6. A evasão fiscal intercontinental organizada pelo principal banco suíço UBS.
Ao longo desta série de textos analisaremos estes seis exemplos.
Conclusão
Torna-se evidente que os bancos e outras grandes instituições financeiras de dimensão mundial, agindo como bandos organizados (em cartel), dão mostras de um nível invulgar de cinismo e abuso de poder. Actualmente, desde que os EUA puseram o dinheiro público à disposição de entidades financeiras cujas apostas especulativas deram para o torto, os magistrados encarregados de aplicar a lei esmeram-se por proteger os responsáveis dessas entidades e banalizam assim, leia-se justificam a posteriori, a sua conduta ilegal ou criminosa.
Este contexto de impunidade encoraja os dirigentes das firmas financeiras a levar cada vez mais longe o abuso e os riscos. Os bancos não são condenados enquanto instituições e a maioria das vezes nem sequer são levados a tribunal.
Esses bancos descarregam inteiramente as responsabilidades para traders como Jérôme Kerviel e outros que tais e conseguem que os tribunais os condenem por lhes terem provocado prejuízos.
A situação dos principais dirigentes dos bancos é totalmente diferente: o montante dos seus bónus cresce com o aumento de lucros do banco (não raro o bónus aumenta mesmo em caso de baixa de rendibilidade do banco), independentemente da origem ilegal das fontes de rendimento ou de provirem de actividades financeiras especulativas extremamente arriscadas. No pior dos casos, se forem descobertos, basta-lhes abandonar a instituição (frequentemente com um pára-quedas dourado); não serão processados pela justiça e conservarão intactos, nas suas contas bancárias, os benefícios recebidos.
Enquanto este tipo de dispositivo perverso é mantido, os abusos e pilhagens dos recursos públicos por parte do sistema financeiro hão-de prolongar-se a perder de vista.
Além dos altos dirigentes, é preciso sublinhar a impunidade dos próprios bancos, a quem as autoridades aplicam a doutrina «demasiado grande para serem presos». Trata-se duma teia apertada que une as direcções dos bancos, os grandes accionistas, os governos e os diferentes órgãos vitais dos Estados.
Em caso de falhas graves, é preciso pôr em prática uma solução radical: retirar a licença bancária aos bancos culpados de crimes, proibir definitivamente algumas das suas actividades, levar a tribunal os dirigentes e grandes accionistas. É preciso também impor indemnizações aos dirigentes e grandes accionistas.
Por fim, é urgente dividir cada banco em várias entidades, a fim de limitar os riscos, socializar esses bancos e pô-los sob controlo cidadão e criar assim um serviço público bancário que dê prioridade à satisfação das necessidades sociais e à protecção da natureza.

Publicado em cadtm.orgTradução: Rui Viana Pereira. Revisão: Maria da Liberdade
Notas
|1| O autor agradece a Daniel Munevar, economista do CADTM, que produziu uma primeira síntese concisa muito útil sobre o tema e autorizou a sua utilização livre. O autor completou depois consideravelmente a pesquisa. Ver o artigo original de Daniel Munevar, «La doctrine “trop grandes pour être condamnées” ou comment les banques sont au-dessus des lois», 20-09-2013,www.cadtm.org/La-doctrine-trop-grandes-pour-etre
|2| Os meios de comunicação anglo-saxónicos utilizam regularmente esta expressão há dois anos: ver por exemplo: Abcnews, «Once Again, Is JPMorgan Chase Too Big to Jail?», 7-01-2014, http://abcnews.go.com/Blotter/madoff-ponzi-scheme-prosecutors-find-jpmorgan-chase-big/story?id=21448264 ou Forbes, «Why DOJ Deemed Bank Execs Too Big To Jail», 29-07-2013, http://www.forbes.com/sites/tedkaufman/2013/07/29/why-doj-deemed-bank-execs-too-big-to-jail/
|3| Outra maneira de dizer que nenhum banco perdeu a licença bancária. De facto, para manter as operações bancárias, uma instituição financeira tem de obter uma licença bancária.
|4| A falência da filial Icesave no Reino Unido e na Holanda provocou uma crise internacional entre estes dois países e a Islândia. Esta crise prossegue ainda em 2014, porque o Reino Unido e a Holanda recorreram da sentença do tribunal de arbitragem que deu razão à Islândia em Janeiro de 2013. Ver Financial Times, «Iceland premier repels Icesave lawsuit», 12-02-2014.
|5| Como escreveu o Financial Times: «Iceland, almost uniquely in the western world, has launched criminal cases against the men who used to lead its three main banks that collapsed after the global financial crisis in 2008 after collectively becoming 10 times the size of the island’s economy.» 13-12-2013. Ver: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/eab58f7e-6345-11e3-a87d-00144feabdc0.html#axzz2thdbsViQ
|6| Ver mais adiante a acção do Dexia nos territórios palestinianos ocupados por Israel.
|7Huffingtonpost, “Holder admits some Banks too big to jail”, disponível em: http://www.huffingtonpost.com/2013/03/06/eric-holder-banks-too-big_n_2821741.html Nesse sítio podemos ver e ouvir parte do testemunho do procurador-geral dos EUA, que declara: «I am concerned that the size of some of these institutions becomes so large that it does become difficult for us to prosecute them when we are hit with indications that if you do prosecute, if you do bring a criminal charge, it will have a negative impact on the national economy, perhaps even the world economy,…». Duração do vídeo: 57 segundos – mas vale a pena.
|8| Um estudo recente sobre as práticas de crédito dos bancos nos EUA assinala que apesar da sua heterogeneidade, as irregularidades e burlas estão presentes em diversos graus em todas as instituições financeiras analisadas. Ver «Asset Quality Misrepresentation by Financial Intermediaries: Evidence from RMBS Market», em http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2215422
|9| Bertold Brecht, A Ópera dos Três VinténsA Ópera dos Três Vinténs é uma comédia musical de Bertold Brecht (música de Kurt Weil), apresentada pela primeira vez a 31-08-1928 no Theater am Schiffbauerdamm de Berlim, e depois em versão francesa a 14-10-1930 no teatro Montparnasse.
|11| OECD (2010), «The Impact of the Financial Crisis on Defined Benefit Plans and the Need for Counter-Cyclical Funding Regulations», http://www.oecd.org/pensions/private-pensions/45694491.pdf
|12The Wall Street Journal, «Goldman Sachs Blankfein: Doing Gods work», 9 novembre 2009,http://blogs.wsj.com/marketbeat/2009/11/09/goldman-sachs-blankfein-on-banking-doing-gods-work/

Eric Toussaint, docente na Universidade de Liège, preside do CADTM Bélgica. É autor do livro Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011. Este último recebeu o Prémio do Livro Político na Feira do Livro Político de Liège, http://www.cadtm.org/Le-CADTM-recoit-le-prix-du-livre.
Próximo livro a sair em Abril 2014: Bancocratie, ADEN, Bruxelas, http://www.chapitre.com/CHAPITRE/fr/BOOK/toussaint-eric/bancocratie,58547448.aspx
Este estudo prolonga a série «Bancos contra povos: os bastidores de um jogo manipulado», publicada em 2012-2013 nowww.cadtm.org e, sob outra versão, na série «Et si on arrêtait de banquer?» http://cadtm.org/Et-si-on-arretait-de-banquer

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Sobre o/a autor(a)

Eric Toussaint
Politólogo. Presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo




- A partir de: Esquerda.net



(Os sublinhados são da minha responsabilidade)