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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

“Vespers” (ou “vigília nocturna”) de Rachmaninoff

 


1 - A, magnífica e monumental, obra vocal (sacra ortodoxa …) de Rachmaninoff (compositor russo) com um coro de cerca de 75 elementos.


2 - Ao mesmo tempo que a europa 'civilizada, 'democrática' e dos 'valores' (acompanhada pelo ocidente em geral, também ele – inquestionavelmente – dos 'valores') censura ou proíbe praticamente tudo o que tem origem russa (música, cultura, desporto, …); mantém escancaradas as portas (no desporto, na 'eurovisão', …) ao país do apartheid, da limpeza étnica e do genocídio chamado israel.


- É falência total da coerência (e da honestidade) do civilizado ocidente e dos países da NATO na defesa do direito internacional, do direito internacional humanitário e dos direitos humanos ...


(A UE já decretou 12 ou 13 'pacotes' de sanções à Rússia, com claro prejuízo para os cidadãos europeus, e não só (aumentos de preços de energia, inflação, aumento das prestações com a habitação, etc, etc ….). Entretanto os EUA já vetaram 4 resoluções, no Conselho de Segurança da ONU, que exigiam um cessar-fogo humanitário do seu estado-cliente e estado pária israelita (as resoluções de cessar-fogo foram apresentadas pela Rússia, pelo Brasil, pelos Emirados Árabes Unidos, tendo sido o último veto a 20 de Fevereiro último à resolução apresentada pela Argélia ...))


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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

"Welcome to the machine!"








(divulgação)






Diário Digital com Lusa



21-09-2015



Comissão Europeia «encorajada» com novo parlamento pró-europeu











A Comissão Europeia felicitou hoje Alexis Tsipras pela sua vitória nas eleições de domingo nas eleições legislativas na Grécia, e afirmou-se «particularmente encorajada com a ampla presença no novo parlamento grego de partidos políticos pró-europeus».



O porta-voz do executivo comunitário, Margaritis Schinas, indicou na conferência de imprensa diária da Comissão que o presidente Jean-Claude Juncker vai ainda hoje à tarde ter a oportunidade de conversar com Tsipras, reconduzido no cargo de primeiro-ministro, na sequência do triunfo do Syriza nas eleições antecipadas de domingo, agora já sem a ala mais radical do partido.



«Foi sob a liderança de Alexis Tsipras que a Grécia se comprometeu com um ambicioso programa de reformas», no quadro do acordo assinado em agosto para um terceiro programa de assistência à Grécia, pelo que «o novo governo terá agora o mandato para implementar estas reformas», comentou o porta-voz.



Sublinhando que «a Comissão está pronta para ajudar» as autoridades gregas, Margaritis Schinas lembrou que «há muito trabalho pela frente e não há tempo a perder», e reafirmou o objetivo de a primeira revisão do terceiro «resgate» à Grécia ter lugar durante o outono.



O Syriza, partido liderado por Tsipras, repetiu no domingo a vitória de janeiro passado, desta feita com 35,5% dos votos, e vai voltar a formar uma coligação governamental com o partido nacionalista de direita Gregos Independentes, que obteve 3,69% dos votos.



Diário Digital com Lusa




(os sublinhados são da minha responsabilidade)


- A partir de: diário digital



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Como é forçoso constatar, no texto supra, o júbilo habita por Bruxelas!

A UE congratula exultante os partidos dos memorandos e da troika na Grécia – contando estes recentemente com mais 1 membro; o recém eleito Syriza, liderado pelo novo 1º ministro grego Tsipras.



O contentamento vibrante das intituições de Tusk, Juncker, Schäuble, Merkel e restantes; tem instigado e mantido os novos governantes gregos na “crista da onda” e ocupadíssimos na aplicação de programas, acordos e memorando – o 3º – levado para a Grécia pelos recém eleitos governantes e garantidos parlamentar e partidariamente pela recente coligação alargada de novos e velhos políticos.



Em matérias em que não se vislumbram alternativas no horizonte, nem além deste, é compreensível e justificável a alargada união. Acima de tudo, a defesa da “unidade da Europa” assim o exige!



Bom, e pegando nas (e fazendo minhas as) encorajadoras e enternecedoras palavras do representante da C.E.; “pronta a ajudar” as autoridades gregas - “bons trabalhos”!



So, “welcome to the machine”! ...








quinta-feira, 16 de julho de 2015

Dada a sua importância (histórica, social, política, económica ...) aqui fica: o “acordo” de Bruxelas (anotado por Varoufakis)










(divulgação)





 

Leia aqui o “acordo” de Bruxelas (anotado por Varoufakis)





O ex-ministro das Finanças grego decidiu dar a conhecer as suas notas pessoais sobre o texto que serviu de acordo em Bruxelas e no qual, poucos dias depois, já ninguém diz acreditar.




A Cimeira do Euro sublinha a necessidade crucial de restabelecer a confiança com as autoridades gregas [i.e. o governo grego deve introduzir austeridade severa que atinja os mais fracos, que já sofreram gravemente], como pré-requisito para um eventual acordo futuro sobre um novo programa do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) [i.e. para um novo empréstimo para adiar e fingir].

Neste contexto, é fundamental que as autoridades gregas assumam as suas responsabilidades [i.e. o governo do Syriza deve assinar uma declaração a dizer que se passou para a “lógica” da troika] e que os compromissos políticos sejam seguidos de uma aplicação bem sucedida.

Um Estado-Membro da área do euro que solicite assistência financeira do MEE deverá apresentar, sempre que possível, um pedido semelhante ao FMI. Esta é uma condição prévia para o Eurogrupo chegar a acordo sobre um novo programa do MEE. Consequentemente, a Grécia solicitará a assistência continuada do FMI (acompanhamento e financiamento) a partir de março de 2016 [i.e. Berlim continua a acreditar que a Comissão não é de confiança para ser “polícia” dos próprios programas de “resgate” europeus].

Dada a necessidade de restabelecer a confiança com a Grécia, a Cimeira do Euro saúda os compromissos assumidos pelas autoridades gregas no sentido de legislarem sem demora sobre um primeiro conjunto de medidas [i.e. a Grécia deve sujeitar-se ao afogamento orçamental, mesmo antes de ser garantido algum financiamento]. As referidas medidas basear-se-ão integralmente num acordo prévio com as Instituições e incluirão:

até 15 de julho

– a racionalização do sistema do IVA e o alargamento da base de tributação para aumentar as receitas [i.e. dar um golpe profundo à única indústria em crescimento da Grécia – o turismo];

– a adoção de medidas imediatas para melhorar a sustentabilidade a longo prazo do sistema das pensões, no âmbito de um vasto programa de reforma das pensões [i.e. reduzir as pensões mais baixas, ignorando que a razia no capital dos fundos de pensões se deveu ao PSI da troika em 2012 e aos efeitos nefastos da queda no emprego e do trabalho não declarado];

– a garantia da total independência jurídica do ELSTAT (autoridade estatística grega) [i.e. a troika exige controlo absoluto sobre a forma como o equilíbrio orçamental é calculado, para assim controlar por inteiro a agnitude da austeridade que impõe ao governo];

– a plena aplicação das disposições pertinentes do Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária, em particular, tornando o Conselho Orçamental plenamente operacional antes da finalização do Memorando de Entendimento e introduzindo cortes quase automáticos nas despesas no caso de desvios em relação aos objetivos ambiciosos para o saldo primário, depois de consultado o Conselho Orçamental e sob reserva de aprovação prévia pelas Instituições [i.e. o governo grego, que sabe que as metas orçamentais impostas nunca serão atingidas com a austeridade imposta, deve comprometer-se a nova e automática austeridade que resulte de novos erros da troika];

até 22 de julho

– a adoção do Código de Processo Civil, que representa uma importante reformulação dos procedimentos e disposições do sistema de justiça civil e pode acelerar significativamente o processo judicial, bem como reduzir os custos [i.e. execuções de hipotecas, despejos e liquidação de milhares de casas e empresas que não estejam em condições de continuar a pagar as suas hipotecas/empréstimos];

– a transposição da Diretiva Recuperação e Resolução Bancárias, contando com o apoio da Comissão Europeia.

Somente após a aplicação jurídica das primeiras quatro medidas supramencionadas e a aprovação pelo Parlamento grego, bem como a verificação pelas Instituições e o Eurogrupo, de todos os compromissos incluídos no presente documento se poderá tomar, de forma imediata, a decisão de mandatar as Instituições para negociar um Memorando de Entendimento [i.e. o governo do Syriza deve ser humilhado ao ponto em que lhe pedem para impor dura austeridade como primeiro passo para pedir outro empréstimo tóxico, do mesmo tipo dos que o Syriza ficou internacionalmente famoso por combater].

A tomada dessa decisão ficará sujeita à conclusão dos procedimentos nacionais e ao cumprimento das condições prévias estabelecidas no artigo 13.º do Tratado MEE, com base na avaliação a que se refere o n.º 1 desse artigo. Para que haja uma base para a celebração bem-sucedida do Memorando de Entendimento, as medidas de reforma propostas pela Grécia precisam de ser seriamente reforçadas para terem em conta a situação económica e orçamental do país, que se deteriorou gravemente durante o último ano [i.e. o governo do Syriza deve aceitar a mentira de que ele, e não as táticas de estrangulamento dos credores, causou a deterioração aguda da economia nos últimos seis meses – pedem à vítima que assuma a culpa no lugar do vilão].

O Governo grego precisa de se comprometer formalmente a reforçar as suas propostas [i.e. a torná-las mais recessivas e desumanas] numa série de domínios identificados pelas Instituições, com um calendário claro e satisfatório para a adoção de legislação e a sua aplicação, incluindo marcos de referência estruturais, etapas e marcos de referência quantitativos, a fim de haver clareza quanto à orientação das políticas a médio prazo.

Em acordo com as Instituições, necessita nomeadamente de:

– levar a cabo ambiciosas reformas das pensões e especificar políticas para compensar integralmente o impacto orçamental da decisão do Tribunal Constitucional sobre a reforma das pensões de 2012 [i.e. cancelar a decisão do Tribunal a favor dos pensionistas] e implementar a cláusula de “défice zero” [i.e. cortar em 85% as pensões suplementares que o governo do Syriza defendeu com unhas e dentes nos últimos cinco meses] ou medidas alternativas mutuamente aceitáveis [i.e. encontrar vítimas “equivalentes] até outubro de 2015;

– adotar reformas mais ambiciosas para o mercado de produtos, com um calendário preciso para a aplicação de todas as recomendações do Guia de Avaliação de Concorrência da OCDE (volume 1) [i.e. as recomendações que a OCDE afastou após ter redesenhado estas reformas em colaboração com o governo do Syriza], incluindo o comércio ao domingo, as épocas de saldos, a propriedade das farmácias, o leite e as padarias, com exceção dos produtos farmacêuticos não sujeitos a receita médica, que serão incluídos numa próxima fase, bem como para a abertura de profissões fechadas que são cruciais no plano macroeconómico (por exemplo, o transporte por ferry). No seguimento do Guia de Avaliação da Concorrência da OCDE (volume 2), a indústria transformadora terá de ser incluída nas ações prévias;

– no que respeita aos mercados da energia, prosseguir a privatização do operador da rede de transporte de eletricidade (ADMIE) exceto se forem encontradas medidas de substituição que tenham efeitos equivalentes na competitividade, conforme acordado pelas Instituições [i.e. a ADMIE será vendida a interesses instalados estrangeiros a mando as Instituições];

– no que respeita aos mercados de trabalho, levar a cabo um reexame e uma modernização rigorosos da negociação coletiva [i.e. assegurar que nenhuma negociação coletiva será permitida], da ação laboral [i.e. que deve ser proibida] e, em conformidade com a diretiva e as melhores práticas da UE nesta matéria, dos despedimentos coletivos [i.e. devem ser permitidos por capricho do patrão], em sintonia com o calendário e a abordagem acordados com as Instituições [i.e. a troika decide].

Com base nestas avaliações, as políticas do mercado de trabalho deverão ser alinhadas pelas boas práticas internacionais e europeias, e não deverão passar pelo regresso a políticas do passado que não são compatíveis com os objetivos da promoção do crescimento sustentável e inclusivo [i.e. não pode haver mecanismos que o trabalho assalariado possa usar para obter melhores condições por parte dos empregadores];

– adotar as medidas necessárias para reforçar o setor financeiro, nomeadamente medidas decisivas quanto aos empréstimos improdutivos [i.e. um tsunami de execuções fiscais e está ante portas] e medidas para reforçar a governação do Fundo Helénico de Estabilidade Financeira (HFSF) e dos bancos [i.e. o povo grego que sustenta o HFSF e os bancos terão precisamente zero controlo sobre o HFSF e os bancos], eliminando, em particular, qualquer possibilidade de ingerência política, sobretudo nos processos de nomeação [i.e. à exceção da interferência política da troika]. Além disso, as autoridades gregas devem tomar as seguintes medidas:

– desenvolver um programa de privatizações significativamente reforçado e com uma melhor governação. Serão transferidos ativos gregos de valor para um fundo independente que monetizará os ativos através de privatizações e de outros meios [i.e. um Treuhand à moda da Alemanha Oriental deverá vender toda a propriedade pública mas sem os investimentos equivalentes que a Alemanha Ocidental pôs na Alemanha Oriental em compensação pelo desastre do Treuhand]. A monetização dos ativos será uma das fontes para proceder ao reembolso agendado do novo empréstimo do MEE, e gerar, em todo o ciclo de vida do novo empréstimo, um total que se pretende atinja os 50 mil milhões de EUR, dos quais 25 mil milhões serão usados para o reembolso da recapitalização dos bancos e outros ativos e 50% de cada euro remanescente (ou seja, 50% de 25 mil milhões de EUR) serão usados para reduzir o rácio dívida/PIB e os restantes 50% serão usados para investimentos [i.e. a propriedade pública será vendida e as magras receitas vão para o serviço de uma dívida impagável – nada sobrando para o investimentopúblico ou privado]. Este fundo será estabelecido na Grécia e gerido pelas autoridades gregas sob a supervisão das Instituições europeias pertinentes [i.e. ficará em nome da Grécia, mas, tal como o HFSF e o Banco da Grécia, será controlado em absoluto pelos credores]. Mediante acordo com as Instituições e com base nas melhores práticas internacionais, deverá ser adotado um quadro legislativo para garantir a transparência dos procedimentos e a adequada fixação do preço de venda dos ativos, de acordo com os princípios e normas da OCDE em matéria de gestão das empresas públicas;

– em consonância com as ambições do Governo grego, modernizar e reforçar significativamente a administração grega, e implementar um programa, sob os auspícios da Comissão Europeia, para o reforço das capacidades e a despolitização da administração grega [i.e. tornar a Grécia numa zona livre de democracia feita em Bruxelas, uma forma de governo supostamente tecnocrático, que é tóxico politicamente e inepto do ponto de vista macroeconómico]. Deverá ser apresentada uma primeira proposta até 20 de julho, após os debates com as Instituições. O Governo grego compromete-se a reduzir ainda mais os custos da administração grega [i.e. reduzir os salários mais baixos enquanto aumenta um pouco os salários de alguns apparatchiks simpatizantes da troika], em conformidade com o calendário acordado com as Instituições;

– normalizar plenamente os métodos de trabalho com as Instituições, incluindo as necessárias ações no terreno, em Atenas, a fim de melhorar a execução e o acompanhamento do programa [i.e. a troika contra-ataca e exige que o governo grego a convide para regressar a Atenas como Conquistador – a “paz cartaginesa” em todo o seu esplendor]. O Governo precisa de consultar as Instituições e acordar com estas em tempo útil todos os projetos legislativos nos domínios relevantes antes de os submeter a consulta pública ou de os apresentar ao Parlamento [i.e. o parlamento grego deve, uma vez mais, após breves cinco meses de independência, ser um apêndice da troika – aprovando leis traduzidas mecanicamente]. A Cimeira do Euro volta a realçar que a execução é fundamental; nesse contexto, saúda a intenção das autoridades gregas de lançar às Instituições e aos Estados-Membros, até 20 de julho, um pedido de assistência técnica, e pede à Comissão Europeia que coordene este apoio da Europa;

– com exceção da lei da crise humanitária, o Governo grego reexaminará, tendo em vista a sua alteração, a legislação introduzida que é contrária ao acordo de 20 de fevereiro, voltando a alinhá-la pelos anteriores compromissos do programa, ou identificará equivalentes compensatórios claros para os direitos adquiridos que foram subsequentemente criados [i.e. para além de prometer que não voltará a legislar de forma autónomoa, o governo grego irá anular retroativamente as leis que aprovou nos últimos cinco meses].

Os compromissos acima enumerados constituem os requisitos mínimos para encetar as negociações com as autoridades gregas. No entanto, a Cimeira do Euro deixou bem claro que o início das negociações não exclui um eventual acordo final sobre um novo programa do MEE, que terá de basear-se numa decisão sobre a totalidade do pacote (incluindo as necessidades de financiamento, a sustentabilidade da dívida e um eventual financiamento intercalar) [i.e. autoflagelar-se, impor mais austeridade a uma economia esmagada pela austeridade, e depois logo se vê se o Eurogrupo vos enterrará com novos empréstimos tóxicos e insustentáveis].

A Cimeira do Euro toma nota das possíveis necessidades de financiamento do programa, que oscilam entre 82 e 86 mil milhões de EUR de acordo com a avaliação das Instituições [i.e. o Eurogrupo fez aparecer um número gigantesco, bem maior que o necessário, para assinalar que a restruturação da dívida está afastada e que a escravidão da dívida ad infinitum é a regra do jogo]. A Cimeira do Euro convida as Instituições a explorar as possibilidades de reduzir o pacote de financiamento através de uma via orçamental alternativa ou de um aumento das receitas das privatizações [i.e. e até pode ser possível que os porcos voem]. O restabelecimento do acesso aos mercados, que constitui um objetivo de qualquer programa de assistência financeira, reduz a necessidade de utilizar à totalidade do envelope de financiamento [i.e. o que é algo que os credores farão tudo para evitar, por exemplo assegurando que a Grécia só entrará no programa de ‘quantitative easing’ do BCE em 2018, quando o ‘quantitavive easiing’ chega… ao fim].

A Cimeira do Euro toma nota das prementes necessidades de financiamento da Grécia, que realçam a necessidade de progredir muito rapidamente na obtenção de uma decisão sobre um novo Memorando de Entendimento: de acordo com as estimativas, são necessários 7 mil milhões de EUR até 20 de julho e mais 5 mil milhões de EUR até meados de agosto [i.e. “adiar e fingir”, aqui em nova versão]. A Cimeira do Euro reconhece a importância de assegurar que o Estado soberano grego possa pagar ao FMI e ao Banco da Grécia os montantes em atraso e honrar as suas obrigações de dívida nas próximas semanas, a fim de criar condições que permitam uma conclusão ordenada das negociações. Se as negociações não forem concluídas rapidamente, será a Grécia a suportar todos os riscos [i.e. uma vez mais, pedem que a vítima assuma a culpa no lugar do vilão]. A Cimeira do Euro convida o Eurogrupo a debater urgentemente estas questões.

Atendendo aos graves desafios com que se depara o setor financeiro grego, o pacote total de um possível novo programa do MEE teria de incluir o estabelecimento de uma reserva de 10 a 25 mil milhões de EUR para o setor bancário a fim de responder às potenciais necessidades de recapitalização bancária e aos custos de resolução, sendo que 10 mil milhões desse montante seriam disponibilizados imediatamente numa conta separada no MEE [i.e. a troika admite que a recapitalização dos bancos em 2013-2014, que só necessitava no máximo de uns 10 mil milhões, foi insuficiente – mas, como é óbvio, põe as culpas… no governo do Syriza].

A Cimeira do Euro está ciente de que uma rápida decisão sobre o novo programa é uma condição para permitir a reabertura dos bancos, evitando assim um aumento do pacote de financiamento total [i.e. A troika fechou os bancos da Grécia para obrigar o governo do Syriza a capitular e agora grita pela sua reabertura]. O BCE/MUS procederá a uma avaliação completa depois do verão. A reserva global permitirá suprir os eventuais défices de capital na sequência da avaliação completa efetuada depois de o quadro legal ter sido aplicado.

Existem graves preocupações quanto à sustentabilidade da dívida grega [N.b. A sério? Ena!]. Isso deve-se ao afrouxamento das políticas durante os últimos doze meses, o que resultou na recente deterioração do enquadramento macroeconómico e financeiro a nível interno [i.e. não foram os “resgates” de adiar e fingir de 2010 e 2012 que, juntamente com a austeridade destruidora do PIB, que levaram a uma dívida a disparar – foi a perspetiva, e a realidade, de um governo que criticou os empréstimos dos “resgates” de Adiar e Fingir que… levaram à Insustentabilidade da Dívida!].

A Cimeira do Euro recorda que os Estados-Membros da área do euro têm adotado, ao longo dos últimos anos, um considerável conjunto de medidas para apoiar a sustentabilidade da dívida da Grécia, o que facilitou o serviço da dívida grega e reduziu significativamente os custos [i.e. o 1º e 2º programas de “resgate” fracassaram, a dívida disparou como tinha de disparar, já que o verdadeiro objetivo dos programas de “resgate” era transferir as perdas dos bancos para os contribuintes europeus]. Sendo este o pano de fundo, no contexto de um eventual programa futuro do MEE, e em consonância com o espírito da declaração do Eurogrupo de novembro de 2012 [i.e. uma promessa de restruturação da dívida aos anteriores governos gregos que nunca foi cumprida pelos credores], o Eurogrupo mantém-se disposto a ponderar, se necessário, possíveis medidas adicionais (eventual alargamento dos períodos de carência e dos prazos de pagamento) a fim de assegurar que as necessidades de financiamento brutas se mantenham a um nível sustentável. Estas medidas ficarão dependentes da aplicação integral das medidas a acordar num eventual novo programa, e serão ponderadas após a primeira conclusão positiva da avaliação [i.e. Uma vez mais, a troika deixará o governo grego trabalhar sob uma dívida impagável e quando, em consequência disso, o programa falhar, a pobresa aumentar ainda mais e os rendimentos caírem muito mais, aí podemos cortar parte da dívida – como fez a troika em 2012].

A Cimeira do Euro salienta que não podem ser efetuados cortes nominais da dívida [N.b. O governo do Syriza tem proposto, desde janeiro, uma restruturação moderada da dívida, com nenhum corte, maximizando o valor atual líquido previsto dos reembolsos aos credores – o que foi semrpe recusado pela troika porque o seu objetivo era, simplesmente, humilhar o Syriza]. As autoridades gregas reiteram o seu inequívoco compromisso de honrar de forma integral e atempada as obrigações financeiras que assumiram para com todos os seus credores [N.b. o que só poderá acontecer após uma restruturação substancial da dívida]. Desde que estejam reunidas todas as condições necessárias contidas no presente documento, o Eurogrupo e o Conselho de Governadores do MEE podem, em conformidade com o artigo 13.º, n.º 2, do Tratado MEE, conferir mandato às Instituições para negociar um novo programa do MEE, se estiverem reunidas as condições prévias do artigo 13.º do Tratado MEE com base na avaliação referida no artigo 13.º, n.º 1. Para apoiar o crescimento e a criação de emprego na Grécia (nos próximos 3 a 5 anos)[N.b. Após destruírem o emprego e o crescimento nos últimos cinco anos…], a Comissão trabalhará em estreita colaboração com as autoridades gregas para mobilizar um montante que poderá ascender a 35 mil milhões de euros (ao abrigo de vários programas da UE) para financiar o investimento e a atividade económica, incluindo o investimento nas PME [i.e. Usará a mesma ordem de grandeza dos fundos estruturais, mais algum dinheiro a fingir, como o que esteve disponível em 2010-2014]. Como medida excecional e atendendo à situação única da Grécia, a Comissão irá propor um aumento de mil milhões de euros do nível de pré-financiamento para dar um impulso imediato ao investimento, a analisar pelos colegisladores da UE [i.e. Dos tais 35 mil milhões anunciados, leiam-se estes mil milhões como dinheiro a sério]. O Plano de Investimento para a Europa também proporcionará oportunidades de financiamento para a Grécia [i.e. o mesmo plano que a maioria dos ministros da zona euro chamam um programa fantasma].



Nota: o documento original do acordo foi traduzido pelo Expresso.




- A partir de: InfoGrécia







quarta-feira, 15 de julho de 2015

"Varoufakis abre o livro: “Você até tem razão, mas vamos esmagar-vos à mesma”" - Entrevista










(divulgação)








Varoufakis abre o livro: “Você até tem razão, mas vamos esmagar-vos à mesma”






Na primeira entrevista após deixar o Ministério das Finanças, Varoufakis revela que defendeu a emissão de moeda alternativa como resposta à asfixia dos bancos, fala da “completa falta de escrúpulos democráticos por parte dos supostos defensores da democracia na Europa” e acusa os governos de Portugal e Espanha se serem “os mais enérgicos inimigos do nosso governo”.


“Desde o início, esses países [os mais endividados] deixaram bem claro que eram os mais enérgicos inimigos do nosso governo(…). E claro que a razão era que o seu maior pesadelo era o nosso sucesso: se conseguíssemos um acordo melhor para a Grécia, isso iria obliterá-los politicamente, teriam de responder aos seus povos porque não tinham negociado como nós fizemos”, responde Varoufakis na entrevista à New Statesman.


 

O ambiente no Eurogrupo é um dos temas mais tratados na entrevista e é definido assim pelo antigo ministro das Finanças grego: “Aquilo é como uma orquestra bem afinada e Schäuble é o maestro. Tudo segue a sua pauta”. Para Varoufakis, apenas o ministro francês sai do tom, mas de forma “muito subtil”, parecendo que não se está a opor ao homólogo alemão. Mas no fim, quando o Dr. Schäuble responde a definir a linha oficial, o ministro das Finanças francês acaba sempre por aceitar”, explica.

Varoufakis explica também o episódio da sua “expulsão” da reunião do Eurogrupo em junho. Quando chamou a atenção de Dijsselbloem que as declarações do Eurogrupo têm de ser aprovadas por unanimidade e que ele não pode convocar uma reunião excluindo um dos membros, “ele disse: Tenho a certeza de que posso. Então pedi um parecer legal. Isso criou alguma confusão. A reunião parou cinco ou dez minutos, os funcionários falavam uns com os outros ao telefone e acabou por chegar um responsável dos assuntos legais ao pé de mim a dizer-me isto: Bom, o Eurogrupo não tem existência legal, não há nenhum tratado que tenha previsto este grupo”.

“Eurogrupo toma decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém”

“Afinal o que temos é um grupo inexistente que tem o maior poder para determinar as vidas dos europeus. Não presta contas a ninguém, dado que não existe na lei; não há minutas das reuniões; e é confidencial. Por isso nenhum cidadão sabe o que lá é dito… São decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém”, prossegue Varoufakis.

Quando falava nas reuniões, com argumentos económicos preparados, “as pessoas ficavam a olhar para mim, como se não tivesse falado (…) Bem podia estar ali a cantar o hino da Suécia que ia receber a mesma resposta (…) Nem sequer havia mal-estar, era como se ninguém tivesse dito nada”, revela Varoufakis.

O que mais impressionou Varoufakis nas reuniões a que assistiu foi a “completa ausência de qualquer escrúpulo democrático por parte dos supostos defensores da democracia”. O ex-ministro dá um exemplo: “Ter várias figuras muito poderosas a olharem-me nos olhos e dizerem ‘Você até tem razão no que está a dizer, mas vamos esmagar-vos à mesma’”.

Proposta de emitir moeda paralela, tomar posse do banco central e cortar dívida ao BCE foi a derrota que o levou a sair do governo

Varoufakis fala também pela primeira vez da derrota política que o levou a sair do governo. Segundo a versão do ex-ministro, propôs ao governo um plano com três ações caso o BCE obrigasse ao encerramento dos bancos: a emissão (ou o anúncio) de uma moeda paralela (uma promessa de dívida conhecida como IOU), o corte na dívida detida pelo BCE desde 2012 e tomar o controlo do Banco da Grécia. “Perdi por seis contra dois”, diz Varoufakis, que voltou a insistir no plano na noite da vitória do OXI.

Mas o governo tinha outros planos, segundo Varoufakis, que levaria a “mais concessões ao outro lado: a reunião dos líderes partidários, com o nosso primeiro-ministro a aceitar a premissa de que o que quer que aconteça, o que quer que o outro lado faça, nunca vamos responder de forma desafiante. E basicamente isso significa desistir… deixa-se de negociar”.




- A partir de: InfoGrécia






quinta-feira, 2 de julho de 2015

Οχι (Não)



























  -  Há 5 meses que os Dragui (o mesmo Dragui que no início de 2012 anunciava o enterro do modelo social “O modelo social europeu está morto”), os Juncker, os Dijsselbloem, os Tusk, os Schulz, os Schäuble, Lagarde, Merkel, transmitem, em uníssono, 1 contínuo “queixume” … o Syriza não consegue obter “resultados”; “não há resultados nas 'negociações' com os credores” (BCE, Comissão Europeia, FMI e os bancos e a banca que estes representam) – Logo, não há dinheiro para a Grécia (dinheiro, que mais não serve (na quase totalidade) para ser devolvido aos mesmos credores; em espirais “infernais” de endividamento, austeridade, recessões, juros de endividamento, desastre …).

A responsabilidade – indicam – parece ser das incorrectas escolhas da população grega. A 25 de Janeiro, votaram, simples e irresponsavelmente, errado!

Para os monocórdicos eurocratas – instalados em Bruxelas e em Berlim – (juntamente com seus múltiplos, e fiéis, seguidores), “resultados” conseguiram os seus anteriores interlocutores gregos, de largos anos (ilustres membros das suas famílias políticas com quem partilhavam visões sociais e os mesmos económicos credos).

- No selecto clube privado (fortemente muralhado; interna e externamente) sediado em Bruxelas os estatutos (não prevendo a diferença) impõem o pensamento único!

Por sobre a sua porta têm escrito - PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO PROFESSE A ORTODOXIA – EXTREMISTA – NEOLIBERAL!

- São exclusivistas!

- São segregacionistas!

- Não há espaço à ALTERNATIVA!

- Com Papandreou, Samarás, PASOK, “Nova Democracia”, “Partido Socialista Europeu”, “Partido Popular Europeu” - Sim!

Enfim; falavam a mesma linguagem! defendiam as mesmas coisas!

Deles (em conjunto e com orientação da troika) foram herdados RESULTADOS – INDUBITAVELMENTE – PALPÁVEIS na Grécia!. ECONÓMICOS, SOCIAIS, HUMANOS (à semelhança, aliás, dos restantes países europeus intervencionados)






Não deve, portanto, surpreender (que em nome de, e perante, tais – SUBSTANCIAIS – resultados) as pardas eminências, detentoras dos cargos dirigentes do Clube – insistam em forçar a população grega e o SYRIZA na continuidade (austeridade, memorandos, espirais recessivas e a escravatura da dívida) …

Numa espécie de “evolução na continuidade” como futuro e destino grego ...

“Esquecem” as pardas eminências que a população – na Grécia – pura e simplesmente rejeitou nas ruas e nas mesas eleitorais tal continuidade.

Foi 1 fenómeno “estranho” (e inédito) o “acontecimento” grego, que tem trazido aos esclerosados proprietários do anquilosado Clube, nos últimos meses, algumas insónias - além, segundo consta, desagradáveis, e problemáticas, indigestões …

- Os monocromáticos responsáveis da UE querem, aliviar o “incómodo” grego, opondo-se às escolhas democráticas da população (e às visões alternativas dos seus eleitos).

- Pretendem indicar à Grécia, e à restante europa, que não há lugar - no clube – à alternativa e a percursos diferentes na navegação.

- Pretendem mostrar que a navegação europeia apenas conhece e reconhece uma via.

- As instituições europeias (e o FMI) dizem só conhecer uma rota.


- A população grega afirma: É vasto o oceano!



- Não (Οχι) à promoção da destruição (do que resta) do estado social, da aniquilação de seres humanos, da dignidade!

- Não (Οχι) à devastação social neoliberal!



- Outra europa precisa-se!








sábado, 21 de fevereiro de 2015

"O Syriza está a recuar?" - Por Stathis Kouvelakis







(divulgação)



O Syriza está a recuar?


É muito difícil ter uma visão clara destas negociações paradoxais, dada a completa assimetria na balança de forças, e o facto de um lado ter uma arma apontada à sua cabeça. O que é claro, porém, é que o governo grego retrocedeu em aspectos cruciais e a Alemanha quer uma rendição total. Por Stathis Kouvelakis







Para usar um cliché muito gasto, “os tempos são críticos”. De facto, são mais do que isso: estamos à beira de uma sequência temporal crucial. Todo o comportamento do governo Syriza será julgado pela sua reação à chantagem e aos ultimatos sem precedentes que está a receber por parte dos seus tragicamente denominados “parceiros” europeus.

E as notícias da linha de frente não são agradáveis. É claro que é muito difícil ter uma visão clara da situação atual das negociações – “negociações” que são um paradoxo, dada a completa assimetria na balança de forças, e o facto de um lado ter uma arma (o Banco Central Europeu) apontada à cabeça do outro. O que é claro, porém, é que o governo grego retrocedeu em aspectos cruciais, especialmente no que diz respeito aos seus compromissos para com o povo que o elegeu.

Antes de examinar a substância do pedido para uma extensão do “Programa de Assistência Económica e Financeira” enviado na quarta-feira pelo governo grego a Bruxelas, vejamos com mais detalhe o “documento Moscovici” divulgado pelo governo grego durante a reunião do Eurogrupo na última segunda-feira, na mesma altura em que declarou estar disposto a assiná-lo.

Este documento descarta “ações unilaterais”, estabelece como objetivo fiscal superavits primários num volume indefinido, e reconhece a dívida na sua totalidade. Todos os ajustamentos futuros para a reestruturação da dívida terão de estar em linha com as decisões do Eurogrupo de novembro de 2012.

Essencialmente, a implementação das medidas fundamentais do programa eleitoral do Syriza de Salónica ficam sujeitas à aprovação prévia dos credores, o que corresponde de facto à anulação do programa. Além disso, reconhece os termos odiosos dos acordos com os credores, dessa forma enfraquecendo a posição negocial da Grécia sobre essa questão. É óbvio que ao aceitar este enquadramento como um supostamente “acordo honroso”, o governo do Syriza fica com as mãos atadas.

O pedido de extensão do Programa de Assistência Económica e Financeira inclui todos os pontos acima mencionados e acrescenta – pela primeira vez – o reconhecimento da “supervisão no âmbito da [União Europeia] e do BCE e, no mesmo espírito, com o Fundo Monetário Internacional para a duração de um acordo de extensão (alínea f)”. Por outras palavras, a troika está de volta mas com um nome diferente. Os média gregos já começaram a falar das “Instituições”.

Mas nem isso é suficiente para a UE e o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble. Tendo compreendido que o lado grego – ansioso por evitar qualquer rotura e até uma ação unilateral – está num caminho constante de retirada, o “parceiro” optou pela rendição total como o seu alvo primordial.

Ao dar uma lição ao governo do Syriza, também estão a advertir o Podemos e qualquer outra força na Europa que possa desafiar a austeridade, os memorandos e a escravatura da dívida. O lado alemão rejeitou tanto o pedido grego para o Programa de Assistência Económica e Financeira, aparentemente visando mais concessões da Grécia, e a completa humilhação do governo de esquerda grego.


"Não pode ser descartado que a escalada de exigências da UE e dos credores seja rejeitada por um governo que empreendeu alguns compromissos básicos para com o seu povo.

É aqui, talvez, que reside a esperança. Não pode ser descartado que a escalada de exigências da UE e dos credores seja rejeitada por um governo que empreendeu alguns compromissos básicos para com o seu povo. E, mais importante, serão rejeitados por um povo que acredita de novo na esperança e que a leva para as ruas e praças do país. Uma retirada não deveria ser tratada como inevitável, e o governo grego merece apoio até o ponto em que aguente firme na guerra travada contra ele.

Qualquer que seja a conclusão, uma coisa é certa. Todos os argumentos tranquilizadores que circularam nos últimos anos – acerca de um bluff europeu, acerca da possibilidade de derrotar a austeridade dentro da eurozona, de separar os acordos com os credores dos memorandos, de soluções na linha da conferência de Londres de 1953 sobre a dívida alemã (quer dizer, de uma reestruturação favorável ao devedor com o acordo do credor) – por outras palavras, os elementos constituintes da narrativa do “bom euro” – entraram todos em colapso.

Nalgum momento, também nos devem explicações sobre isto.


Stathis Kouvelakis é professor de Filosofia Política no King’s College de Londres e membro do Comité Central do Syriza.

Publicado em Jacobin

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net




- A partir de: esquerda.net



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

(...) “É uma declaração de guerra aberta contra o governo de Tsipras [e as decisões democráticas da população grega - acrescentaria]: ou renuncia à sua política ou os bancos gregos vão à falência. O BCE opta por uma estratégia de caos (...)” - Por Michel Husson








(Divulgação)




Grécia: começou o braço-de-ferro


Interesses poderosos não aceitam a vitória eleitoral do Syriza e adotam a tática do caos: querem dizer à Europa que negociar não é possível. Por Michel Husson, A l'encontre





A tarefa mais urgente e mais determinante é construir, em toda a Europa, a resistência às pressões que a Grécia sofre. Foto Left.gr



O Banco Central Europeu (BCE) acaba de tomar uma decisão de uma brutalidade inaudita: a partir de 11 de fevereiro, não aceitará os títulos públicos gregos como contrapartida à liquidez concedida aos bancos gregos1. É uma declaração de guerra aberta contra o governo de Tsipras: ou renuncia à sua política ou os bancos gregos vão à falência. O BCE opta por uma estratégia de caos, cujas consequências são absolutamente imprevisíveis.

Super Mário: o fim das ilusões

A nomeação de Mario Draghi à frente do BCE foi, em si mesmo, uma provocação. É preciso recordar que a entrada da Grécia na zona do euro, em 2001, foi possível graças à maquilhagem das suas contas, realizada sob a supervisão do banco Goldman Sachs. Este tinha aconselhado o governo grego, que utilizara produtos derivados a fim de reduzir a amplitude do seu défice orçamental. Mais tarde, a fraude foi reconhecida e as contas, corrigidas. Mas Mario Draghi atuou como vice-presidente do Goldman Sachs para Europa de 2002 a 2005 e, por isso, é difícil acreditar que ele não estivesse ciente dessas manipulações, nem dos 300 milhões de dólares que haviam reportado a seu banco. Depois de suceder a Jean-Paul Trichet na chefia do BCE, este último, diante de uma pergunta de um jornalista sobre o passado de Draghi no Goldman Sachs, respondeu com um silêncio sonoro e revelador2.

“Tudo o que for necessário para salvar o euro”: com essa fórmula proferida num discurso no último dia 26 de julho, Draghi fez acreditar que, sob o seu mandato, o Banco Central Europeu fosse implementar uma política mais acomodável. O anúncio posterior de uma Quantitative Easing à europeia, ou seja, compras massivas de títulos públicos no mercado secundário, teve dois efeitos. Indicando aos mercados financeiros que os seus ataques especulativos seriam sistematicamente anulados, permitiu desinflar um pouco as taxas de juros concedidas aos países em dificuldades; e estabelecendo distância do dogma merkeliano, dava a impressão de que a zona do euro dava um pequeno passo em direção a uma gestão mais solidária em relação às dívidas soberanas. O anúncio do plano de investimento por Juncker parecia confirmar essa impressão de que a política europeia estava a começar a reorientar-se. Ilusões que já foram dissipadas, por exemplo, por Pierre Khalfa3, que apontou os limites do “Super Mário” e as enganosas aparências do plano Juncker.

Mas a decisão do BCE foi o fim da brincadeira e redescobrimos que os princípios da austeridade europeia não variaram uma polegada. O primeiro princípio é que as dívidas devem ser pagas. No caso grego, a sua consequência é particularmente clara. Em 2012, a dívida grega teve um corte (haircut); isto é, foi reestruturada. Mas tal reestruturação era bem mais modesta, dado que, segundo as próprias estatísticas da Comissão Europeia, a dívida grega passou de 356 mil milhões de euros no final de 2011 para 305 mil milhões no final de 2012 – isso quer dizer uma redução efetiva de 51 mil milhões (14% do total). Na realidade, foi sobretudo uma reestruturação dos créditos dos bancos privados que, mediante uma modesta redução, se viram livres desses créditos duvidosos e que foram assumidos, na sua grande maioria, pelas instituições europeias. Instituições para as quais aquele era o último esforço a fim de aliviar a carga da dívida. Mas, sempre segundo dados oficiais, no final de 2014 a dívida grega representava 175,4% do PIB. E o objetivo que se impõe à Grécia é reduzi-la a 120%, ou seja, uma redução desmedida e impossível de se alcançar sem dizimar o povo grego.

O segundo princípio é o da condicionalidade, que está omnipresente tanto no Quantitative Easing de Draghi como no plano Juncker: todas as ajudas monetárias ou financeiras estão sujeitas à aplicação das famosas “reformas estruturais”, em consonância com o mandato da troika. Para compreender quão detalhados e brutais podiam ser os enviados da troika nas suas prescrições, basta consultar os seus documentos oficiais (por exemplo, o balanço do programa de ajuste grego4 redigido pela Comissão Europeia em abril de 2014).

Qual renegociação da dívida grega?

O ritmo dos acontecimentos acelera e a decisão unilateral do BCE é uma resposta à tática do novo governo grego. O ministro das finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, é um economista heterodoxo brilhante e um crítico original da financeirização que joga um papel central na aspiração dos excedentes (e dos lucros) pelos Estados Unidos, o que ele chama de “O Minotauro planetário”. Mas é também autor, com Stuart Holland e James Galbraith, de uma "modesta proposta para superar a crise do euro”5, uma variante – hábil – da ideia de euro-obrigações que permitam mutualizar as dívidas soberanas (à altura do umbral fatídico dos 60% do PIB de cada país) e reciclar os fundos assim obtidos para financiar um programa europeu de investimentos, via Banco Europeu de Investimentos. Tratava-se, efetivamente, de uma proposta modesta, levando em conta a amplitude dos desequilíbrios estruturais da zona do euro, e apoiando-se na vontade de tornar compatíveis esses novos dispositivos com regras do jogo europeias.

Alguns dias antes da sua nomeação como ministro, fixava o objetivo de “destruir os fundamentos do sistema oligárquico”6 e este ponto é essencial, por duas razões: o aumento da dívida grega antes da crise é indissociável das punições realizadas por essa oligarquia e, efetivamente, o desenvolvimento da Grécia não é possível sem destruir esse sistema. Aí se apresentam “reformas estruturais” necessárias, mas não são, de forma alguma, as mesmas em que pensa a Comissão Europeia pensa.

Agora, a questão imediata é a da dívida. A posição do novo governo desenhou-se muito rapidamente: afirmação da vontade de negociar, mas lembrando o princípio amplamente compartilhado no Syriza, de “nenhum sacrifício para o euro”, e a rejeição de negociar com a troika. Logo vieram as propostas, cujas linhas gerais foram expostas por Varoufakis7. São moderadas ou razoáveis, e consistem em troca da dívida (swap) pela criação dos novos tipos de títulos. Os primeiros substituiriam as ajudas europeias outorgadas em 2012 no marco do mecanismo europeu de estabilidade (MEE) e seriam indexadas ao crescimento. Os segundos seriam obrigações perpétuas que substituiriam os títulos gregos atualmente nas mãos do Banco Central Europeu.

Varoufakis anunciou em seguida que havia escolhido o banco Lazard para aconselhá-lo na negociação. É o mesmo banco que interveio na reestruturação de 2012. O seu vice-presidente para a Europa é Mathieu Pigasse, banqueiro “de esquerda” que, por outro lado, dirige a Inrockuptibles – uma revista progressista – e controla, com Pierre Bergé e Xavier Niel, o Le Monde e o L'Obs.

Aliviar a dívida, em vez de anulá-la

Pigasse detalhou as suas propostas numa entrevista à France Inter8. Consistem em dividir a dívida por dois, em mãos dos credores públicos, o que resulta numa redução de cerca de 100 mil milhões de euros de um total de 320 mil milhões. Isso permitiria à Grécia alcançar o objetivo de um rácio dívida/PIB de 120% a um custo menor. Isto é, não se trata de uma anulação da dívida, mas de um “alívio” ou de uma “diluição”, para retomar os termos de Pigasse. Assim se explica a ideia de indexar os títulos ao crescimento: “Vou pagá-los enquanto o meu crescimento superar um determinado índice”. Esse primeiro dispositivo atuaria sobre 75 mil milhões de euros. Quanto aos títulos perpétuos, implicam juros, mas podem não ser devolvidos, ou sê-lo num prazo muito longo: 100 ou 150 anos, segundo Pigasse. Isso afetaria os 25 mil milhões de euros restantes.

Essas propostas são uma primeira base de discussão que foi imediatamente alvo de uma demonstração de hostilidade, e conduziu o BCE a tomar a sua decisão, que pode comparar-se a um golpe de Estado financeiro. No entanto, o anúncio dessas propostas tinha tranquilizado os banqueiros gregos, cujas ações haviam recuperado um pouco do terreno perdido. Com um comportamento ambíguo, o BCE fez um segundo anúncio, o de uma ajuda aos bancos gregos de 60 mil milhões de euros, concedida no marco de um procedimento de urgência batizado de ELA (Emergency Liquidity Assurance). A mensagem é, portanto, muito clara: “Os bancos antes do povo”. Essa operação ilustra a vontade, bastante política, de desestabilizar o governo grego, privando-o de qualquer alívio que lhe permita avançar na implementação de seu programa. Varoufakis disse precisar de seis meses: o BCE nega-os.

As coordenadas de uma situação complexa

Agora é preciso avaliar as propostas do governo grego, começando por descartar as cifras extravagantes que circularam. Em França, explicaram-nos que eliminar a dívida grega custaria em média entre 650 e 731 euros a cada contribuinte. Na realidade, o que se deixaria de ganhar não seriam mais do que 10,5 euros por adulto residente na França, conforme estabelece com grande clareza um artigo do La Tribune9.

Em todo caso, o que se pode hoje conhecer do plano de alívio é limitado na sua amplitude e está submetido a grandes incertezas. De facto, não afeta mais do que um terço da dívida total e esta continuaria representando 120% do PIB, o que continua a ser considerável. Ao mesmo tempo, é preciso observar que a carga de reembolsos seria reduzida. Este ponto é importante porque a Grécia, diferente da França, por exemplo, não pode “fazer a reciclagem” da sua dívida – dito de outra forma, endividar-se para cobrir os seus reembolsos, pois já não tem acesso (ou teria só a juros extravagantes) aos mercados financeiros.

Portanto, a questão é saber o que ocorreria com o pagamento dos juros. O impacto depende do que concretamente for negociado, em caso de haver uma negociação. Por exemplo, a indexação sobre o crescimento pode querer dizer que a Grécia não pagaria juros, ou que pagaria menos, enquanto não tiver recuperado uma certa taxa de crescimento? Mas qual seria o ponto de crescimento a partir do qual se desencadeariam os pagamentos de juros? Quanto aos títulos perpétuos, eles têm a vantagem de dispensar reembolsos mas, além de representarem apenas 25 mil milhões de euros, também é preciso perguntar qual seria o nível do juro aplicado. A experiência histórica mostra que as “dívidas perpétuas” foram, em geral, acompanhadas de juros mais elevados.

Podemos então repreender o governo grego por não ter feito subir suficientemente os lances, declarando de forma unilateral uma moratória total da dívida (reembolso e juros) para estabelecer uma melhor correlação de forças inicial? É evidentemente possível, de modo abstrato, mas evitaremos aqui adotar uma posição de força sem dúvida muito mais fácil quando afinal não somos senão um observador a distância.

O balanço daquilo que não passa de um primeiro round não é tão mau. O posicionamento do governo grego baseou-se numa mistura, em princípio bem dosada, de firmeza sobre as orientações e de abertura a uma negociação “razoável”. Isso bastou para fazer o BCE sair do bosque e revelar – como se fosse necessário – a sua verdadeira natureza ao serviço dos interesses da finança. E, sobretudo, o governo ganhou legitimidade: na própria Grécia mesmo, mostrando que faz frente às pressões da finança, mas também no conjunto da Europa, onde o apoio à experiência capitaneada pelo Syriza tem agora um objetivo preciso, o de afrouxar as rédeas do BCE sobre a Grécia.

Também é preciso compreender que o governo grego luta em duas frentes: contra o peso da dívida e, portanto, contra o rigor das instituições europeias; e contra a oligarquia. Sem dúvida, este segundo combate é o mais decisivo para, além das medidas de urgência, colocar a Grécia no caminho de um modelo de desenvolvimento mais estável e, por conseguinte, mais igualitário. No entanto, os ritmos não são os mesmos: a dívida é um tema urgente, mas o combate antioligárquico implica implementar as (boas) reformas estruturais, e isso levará mais tempo. A estratégia consiste em acertar temporariamente a questão da dívida, o que pode permitir reorientar mais rapidamente a ação política sobre a situação interna.

Alguns, como Frédéric Lordon10, pensam que o Syriza não tem mais do que duas opções: ou “passa debaixo da mesa” (dito de outra forma, rende-se), ou se “coloca de pernas para o ar”, saindo do euro. Evidentemente, tendo em conta a furiosa vontade das instituições europeias de fazer a experiência grega fracassar, não se pode desconsiderar uma saída do euro. Mas uma desvalorização não constituiria em si mesmo uma baforada de oxigénio suficiente para reabsorver os desequilíbrios estruturais da economia grega, e não permitiria tampouco proteger-se das medidas de represália.

A Grécia vive um desses períodos nos quais a história se acelera, nos quais as correlações de forças se modificam rapidamente. O seu governo e o seu povo estão diante de interesses poderosos, que não aceitam a vitória eleitoral do Syriza, a vitória de um “voto insurrecional”, segundo o Financial Times. O apoio à experiência levada a cabo na Grécia não pode e não deve ser incondicional: seria o pior dos serviços que lhes poderíamos prestar. Esse apoio deve basear-se numa análise mais detalhada possível da evolução da situação, com sugestões e críticas. Mas a tarefa mais urgente e mais determinante é construir, em toda a Europa, a resistência às pressões que a Grécia sofre, e romper com o seu isolamento. Um recente chamamento lançado pelos principais dirigentes sindicais alemães11 afirma que a Grécia não é uma ameaça, mas sim uma oportunidade para a Europa; outro chamamento internacional de economistas e de universitários manda uma mensagem similar aos governos e às instituições europeias:12 é esse tipo de apoio de que a Grécia precisa, e de forma inédita. O futuro do povo grego é decidido hoje na Grécia.


Publicado em A L'Encontre e Viento Sur. Traduzido pela Carta Maior.

Adaptado para Portugal por Luis Leiria para o Esquerda.net


1Eligibility of Greek bonds used as collateral, Press Release, 4/02/2015 http://www.ecb.europa.eu/press/pr/date/2015/html/pr150204.en.html

2Trichet reste muet sur les liens entre Draghi et Goldman Sachs, Arte, septiembre 2012. http://pinguet.free.fr/triche.htm

3Pierre Khalfa, "Super Mario au secours de l'économie européenne ?", Mediapart, 11/09/2014
http://blogs.mediapart.fr/blog/pierre-khalfa/110914/super-mario-au-secou... "Les faux semblants du plan Juncker", Mediapart, 3/12/2014.

4 Commission européenne, The Second Economic Adjustment Programme for Greece. Fourth Review, Abril 2014.

5 Yanis Varoufakis et Stuart Holland, Une modeste proposition pour surmonter la crise de l'euro, Octubre 2011.

6 Yanis Varoufakis, "We are going to destroy the Greek oligarchy system", Channel 4, 23/01/2015.

7 "Greece finance minister reveals plan to end debt stand-off" , Financial Times, 2/02/2015.

8 Mathieu Pigasse sobre a dívida grega, France Inter, 3/02/2015. http://gesd.free.fr/pigasse115.htm

9 "Ce que coûterait vraiment aux contribuables l'annulation de la dette grecque", Ivan Best, La Tribune, 5/02/2015.

10 Michel Husson, "Lordon ou le syllogisme de la défaite", A l'encontre, 21/01/2015.

11 Griechenland nach der Wahl ? Keine Gefahr, sondern eine Chance für Europa, febrero 2015.

12 Nous sommes avec la Grèce et l'Europe, Février 2015. http://blogs.mediapart.fr/edition/q...




(os destaques a vermelho são da minha responsabilidade)



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