Mostrar mensagens com a etiqueta Iraque. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Iraque. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

"De Hiroshima à Síria: o inimigo cujo nome não queremos dizer", por John Pilger






(Divulgação)



terça-feira, 17 de setembro de 2013


De Hiroshima à Síria: o inimigo cujo nome não queremos dizer


11/9/2013, [*] John Pilgerjohnpilger blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Na Grã-Bretanha, o golpe das imagens falsas e de falsas identidades políticas deu menos certo. Lá, parece, começa algum movimento de consciência. Mas que se apressem. Os juízes de Nuremberg foram bem claros: “Qualquer cidadão tem o direito de violar leis domésticas para impedir crimes contra a humanidade e contra a paz”. Toda a honra ao povo da Síria e a incontáveis outros. Os norte-americanos temos muito a aprender com eles.

____





Na parede de meu escritório tenho emoldurada a primeira página do jornal Daily Express do dia 5/9/1945 e a manchete: “Escrevo, como um alerta ao mundo”.
Era a primeira linha da matéria de Wilfred Burchett sobre Hiroshima, a primeira que se leu no ocidente, escrita em Hiroshima, 30 dias depois do ataque norte-americano. Foi o furo jornalístico do século. 


Por causa dessa sua longa, perigosa viagem, que desafiou as autoridades da ocupação norte-americana, Burchett foi massacrado, sobretudo por outros jornalistas “incorporados” às tropas norte-americanas. A matéria denunciava que os EUA haviam cometido um ato de assassinato premeditado em massa, em escala gigantesca e iniciado uma nova era de terror.

Hoje, praticamente todos os dias, Burchett tem sua revanche. A criminalidade intrínseca do uso de armas de destruição em massa, que os EUA inauguraram, está todos os dias aí, ao alcance de todos os olhos, nos Arquivos Nacionais dos EUA e em décadas de militarismo camuflado como democracia. O psicodrama em que os EUA vivem mergulhados em tudo que tenha a ver com a Síria exemplifica tudo isso. Mais uma vez, o povo dos EUA foi capturado e é refém de uma ameaça terrorista ainda negada até pelos mais progressistas críticos das políticas dos EUA para o mundo. 

A terrível verdade jamais mencionada nos EUA é que o mais perigoso inimigo da humanidade vive “do lado de cá” do Oceano Atlântico. 

A farsa de John Kerry e as piruetas de Barack Obama são temporárias. O acordo de paz que a Rússia construiu para as armas químicas da Síria logo, e não demora, começará a ser tratado nos EUA com o desprezo que os militaristas dedicam à diplomacia. Agora, com os EUA já aliados à Al-Qaeda, e os golpistas armados pelos EUA já bem instalados no governo do Cairo, os EUA passam a dedicar-se a tentar esmagar os dois últimos estados independentes que restam no Oriente Médio: primeiro a Síria, depois o Irã.

“Essa operação [na Síria]”, disse o ex-ministro de Relações Exteriores da França Roland Dumas, em junho, “é antiga. Começou há muito tempo. Foi preparada, preconcebida e planejada”. Vídeo a seguir (em francês com legendas em inglês):







Num momento em que a opinião pública está “psicologicamente apavorada”, como disse Jonathan Rugman, do Channel 4, tentando explicar a absoluta rejeição, na população britânica, a um ataque militar contra a Síria, é absolutamente urgente e necessário repor, para a discussão pública, o “inimigo cujo nome não se pronuncia” nos EUA.

Não importa quem tenha usado armas químicas nos subúrbios de Damasco. São os EUA – não a Síria – os mais frequentes usuários dessas armas terríveis. Em 1970, o Senador Gaylord Nelson relatou ao Senado que: 
 
Os EUA lançaram sobre o Vietnã uma quantidade produtos químicos tóxicos (dioxina) que correspondeu a 2,73kg [orig. 6 pounds] por cabeça, contra a população. 

Foi a “Operação Hades” [Inferno], cujo nome adiante foi trocado para Operação Ranch Hand [Operação “Mão rancheira”], conforme a campanha de publicidade, que apresentava o uso de agentes químicos desfolhantes, o “agente laranja”, lançado de aviões sobre o Vietnã, como ajuda aos agricultores vietnamitas que estariam enfrentando pragas nas lavouras]; essa é a origem do que muitos médicos no Vietnã e em todo o mundo chamam de “um ciclo de catástrofe fetal”. Eu mesmo vi muitas crianças deformadas. John Kerry, com seu currículo de guerra encharcado de sangue também viu e deve lembrar.

Também vi crianças deformadas no Iraque, onde os EUA usaram armas de urânio baixo-enriquecido e de fósforo branco, como fizeram os israelenses em Gaza, que fizeram chover armas químicas de destruição em massa sobre escolas e hospitais da ONU. Nesses casos, não houve “linha vermelha” de Obama. Nem shows televisionados de piedade pelas vítimas.

O debate repetitivo sobre se “nós” devemos “agir” contra ditadores cuidadosamente selecionados é parte também da lavagem cerebral a que os norte-americanos somos submetidos. Richard Falk, professor emérito de Direito Internacional e Relator Especial da ONU para a Palestina, descreve o processo como: 
 
(...) modo autocomplacente, arrogante, de selecionar só imagens positivas e morais para divulgar valores ocidentais e inocência, e assim validar uma campanha de irrestrita violência política.
 
E é campanha tão ampla que: 

(...) resulta virtualmente indesmentível.   

E a mentira maior de todas é a dos “liberais realistas” na política anglo-norte-americana, de “especialistas” acadêmicos e da mídia, que se ordenam, eles mesmos, gerentes da crise mundial, quando, na verdade, são a causa dela. Os EUA estudam outros povos como se não fossem parte da mesma humanidade; se não servem aos desígnios da potência ocidental, são “estados falhados”, “estados-bandidos” ou “estados do mal” carentes de “intervenção humanitária”.

Um ataque contra a Síria ou contra o Irã ou contra qualquer dos “demônios” que os EUA criam para o mundo se resumiria a variante “da moda”, da tal “Responsabilidade de Proteger”, cujo garoto-propaganda é o ex-ministro australiano de Relações Exteriores, Gareth Evans, co-presidente de um “Centro Global” (Global Centre) que tem sede em New York. Evans e seus bem remunerados lobbyists têm papel crucial na propaganda para arrastar a “comunidade internacional” a atacar países nos casos em que “o Conselho de Segurança rejeita alguma proposta ou não consegue lidar com a ameaça”.

Evans é conhecido. Aparece em meu filme Death of a Nation, de 1994, que desmascara a escala do genocídio no Timor Leste. O sorridente homem de Canberra lá está, erguendo a taça de champagne num brinde ao ministro indonésio, com dois sobrevoando o Timor Leste em avião australiano, depois de terem assinado o tratado para saquear petróleo e gás do país destroçado, onde Suharto, o tirano indonésio, matou a bala ou de fome um terço da população. 

No governo de Obama, “o Fraco”, o militarismo cresceu talvez mais do que nunca antes. Sem que se veja um único tanque nos gramados da Casa Branca, houve um golpe militar em Washington. Em 2008, com seus devotos liberais secando as últimas lágrimas de “decepção”, Obama pôs-se sob o comando do Pentágono de George Bush: assumiu todas as suas guerras e seus crimes de guerra. 

Com a Constituição já substituída por um estado policial emergente, os mesmos que destruíram o Iraque com choque e pavor, que pilharam e saquearam no Afeganistão e que reduziram a Líbia a um pesadelo hobbesiano, são hoje os senhores e mandam e desmandam no governo dos EUA. Hoje, nos EUA, morrem mais soldados por suicídio, que nos campos de batalha. Só no ano passado, 6.500 veteranos de guerra dos EUA suicidaram-se. E haja bandeiras!

O historiador Norman Pollack chama de “fascismo liberal”. “Esses, do passo-de-ganso” – Pollack escreveu, – substituíram qualquer militarização aparentemente menos inócua da cultura nos EUA. E para liderá-los, bombástico, temos hoje o reformador fracassado, aplicadamente dedicado a organizar assassinatos, um a um ou em massa, e sempre exibindo sorriso que, mais branco, impossível”.

Todas as 3ª-feiras [é hoje!], Obama supervisiona pessoalmente uma rede terrorista mundial de drones que esmagam gente “como insetos”, pelo mundo, os que acorram para socorrê-los, os que se aproximem para chorar os mortos e quem mais passe por ali.

Nas zonas de conforto do ocidente, o primeiro presidente negro eleito na terra da escravidão sente-se muito bem, como se só o fato de ele existir já fosse prova de progresso social e apesar das pegadas de sangue que se veem por onde ele pisa. O servilismo com que os norte-americanos curvaram-se ante o símbolo que acreditaram ver na extraordinária eleição de Obama destruiu o movimento antiguerra nos EUA.

Na Grã-Bretanha, o golpe das imagens falsas e de falsas identidades políticas deu menos certo. Lá, parece, começa algum movimento de consciência. Mas que se apressem. Os juízes de Nuremberg foram bem claros: 

Qualquer cidadão tem o direito de violar leis domésticas para impedir crimes contra a humanidade e contra a paz. 

Toda a honra ao povo da Síria e a incontáveis outros. Os norte-americanos temos muito a aprender com eles.


________

[*] John Pilger - nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Awardna área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor-Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.



- A partir de:  redecastorphoto





segunda-feira, 1 de abril de 2013

Maggie O'Kane ("The Guardian") no "Democracy Now!" com Amy Goodman








_________



- Maggie O'Kane em entrevista com Amy Goodman no Democracy Now! de 22 de Março, último. Tendo como tema o documentário "James Steele: America's Mystery Man in Iraq", de que M. O'Kane foi produtora (revelando o envolvimento dos EUA, na formação de unidades de comando especiais, esquadrões da morte, na banalização da tortura ...).

- Maggie O'Kane, em resposta a Amy Goodman, informa que a realização do documentário só foi possível devido aos documentos divulgados pela WikiLeaks (em Novembro de 2011) e às informações a que permitiram ter acesso.
(Nomeadamente: informações detalhadas acerca; de centenas de incidentes envolvendo militares americanos e da existência de rede de centros de detenção e tortura. Assim como; a clara indicação de que o Departamento de Estado Americano estava inteiramente a par da situação ...)

- Sem ter a pretensão de fazer qualquer resumo das intervenções de M. O'Kane no Democracy Now!, não resisto, a sublinhar, a sua referência à importância dos documentos divulgados pela WikiLeaks na pesquisa e na realização do documentário, assim como (entre várias outras coisas) a indicação de que os documentos deixam claro que o Departamento de Estado Americano estava inteiramente a par da situação. E, da repetida referência à expressão "Frago 242" (abreviatura de "Fragmentary Order 242") - que representava 1 código ordenando a ocultação da tortura ...



- Devido à sua pertinência citaria algumas declarações de Chomsky, também, no Democracy Now! - de 14 de Maio de 2012 (acerca das divulgações da WikiLeaks):

"NOAM CHOMSKY: Não vejo nada revelado pela WikiLeaks que possa ser considerado  um segredo legítimo. Quero dizer, a WikiLeaks constitui, em si, um serviço à população. Assange deveria ser condecorado com - a medalha presidencial de honra. Assange - assim como o conjunto da toda a operação da WikiLeaks - permitiu informar a população acerca do que os seus representantes eleitos andam a fazer [e todas as pessoas interessadas na verdade, em qualquer lugar do planeta - acrescentaria ...] (...) "






segunda-feira, 18 de março de 2013

Ainda a guerra do Iraque e o envolvimento dos EUA ...




- Mais, sobre a invasão e a guerra no Iraque e o envolvimento dos EUA; na formação de unidades de comandos especiais, esquadrões da morte e na banalização da tortura ...


- Mais 1 chocante documentário e 1 infindável rol de práticas, sem nome, do "farol da liberdade e da democracia" ...

_______


(Entrevista a Maggie O'Kane,  Produtora Executiva do documentário)




______

(Documentário completo)





__________



Iraque: Dez anos de guerra provocaram mais de 112.000 mortos

Desde 20 de março de 2003, quando os EUA invadiram o Iraque, já morreram mais de 112.000 civis. Neste domingo, uma explosão matou 10 pessoas na cidade de Bassorá - o atentado já foi reivindicado pela Al-Qaeda. Em entrevista, que aqui divulgamos, Maggie O'Kane fala sobre o documentário do “Guardian”, que expõe a ação dos EUA no conflito sectário no Iraque.






Neste domingo, 17 de março, um carro armadilhado à entrada da cidade iraquiana de Bassorá provocou a morte de, pelo menos, e 16 feridos.

Um estudo, divulgado pelo Iraq Body Count, assinala que desde 20 de março de 2003 já morreram entre 112.017 e 122.438 civis no Iraque. De acordo com o Iraq Body Count, contabilizando combatentes de ambos os lados da guerra e mortes não documentadas, o número total de vítimas mortas no conflito pode ultrapassar as 174.000 pessoas.

Um documentário do jornal britânico “Guardian” (linkado abaixo e disponível no facebook, só em inglês), “James Steele: America's mystery man in Iraq”, expõe o papel dos Estados Unidos no conflito sectário do Iraque.

Em entrevista a Paul Jay do “The Real News Network”, Maggie O’Kane, produtora executiva, fala sobre a história exposta no documentário, sobre o papel do coronel James Steele de apoio à tortura, a esquadrões da morte e no brutal conflito sectário no auge da Guerra do Iraque, sublinhando que os relatórios de Steel eram entregues diretamente a Rumsfeld e Cheney.

A tradução é do coletivo Vila Vudu e está disponível em redecastorphoto.

Maggie O’Kane: Não se discute que o que foi feito lá pode ter sido pensado e planeado para evitar que os insurgentes continuassem a matar soldados dos EUA. Não se discute também se teria sido possível evitar a guerra civil no Iraque. Esses são outros problemas. O que se discute aqui é que a ação de Rumsfeld, que armou um grupo sectário, usando para isso gente como o coronel Steele e o general Petraeus, teve efeitos catastróficos na sociedade iraquiana. No auge daquela guerra civil em 2006, morriam quase 3.000 pessoas por mês, só de vítimas dos confrontos entre grupos sectários. A ação dos norte-americanos, naquele caso, fez do Iraque um inferno. (...)

O pior, de tudo que os EUA fizeram lá foi a decisão de “limpar” o exército e a polícia, extraindo dessas corporações todos os membros do Partido Ba’ath. Se se compara, é mais ou menos como, em 1989, quando, mesmo depois do fim do comunismo, todos, nos países comunistas, eram membros do Partido Comunista. No Iraque aconteceu o mesmo, porque imediatamente antes da intervenção norte-americana tudo – saúde, educação, todas as estruturas do estado estavam sob controle do Partido Ba’ath.

Os EUA, nesse contexto, decidiram “limpar” todas as estruturas, expulsar todos que estivessem no Exército, na Polícia, todos os militares. Claro que muitos, nessas corporações, eram pessoas decentes, que lutavam para sobreviver como podiam, no país que tinham. Os EUA decidiram “limpar” tudo a ferro e fogo. E assim criaram no Iraque um vácuo gigantesco, que só aumentou, até que os EUA descobriram que haviam criado aquele vácuo. Então decidiram “preencher” aquele vácuo, o mais rapidamente possível, com outra força sectária, diferente da anterior. E passaram a armar os sunitas, para que se encarregassem de matar os xiitas, os quais, então, matavam soldados norte-americanos como moscas. (...)

Não sei se os norte-americanos sabiam que o resultado final seria o que temos hoje, nem se procuraram ativamente esse resultado. Não tenho provas que me permitam afirmar que sim, que sabiam que o resultado seria esse e que o procuraram.

Alguém sabia, naquele momento, que aquela estratégia implicava risco grave, que era perigosíssima?

Sabemos, de depoimentos de altos funcionários do governo do Iraque, que aqueles e outros altos funcionários alertaram o general Petraeus, o establishment nos EUA e muitas lideranças políticas nos EUA, no sentido de que não continuassem a armar grupos xiitas sectários; e não entregassem o Ministério do Interior a alguém (como o ministro que já havia sido posto lá pelos EUA) que nutria ódio patológico aos sunitas, Solagh [...] (que perdera 12 membros da família, executados durante o governo de Saddam Hussein [sunita]). Era evidente que aquele homem recebera um poder que não tardaria a explodir, como adiante, de facto, explodiu. Houve inúmeros avisos. O general Petraeus foi diretamente alertado. Todo o establishment político norte-americano foi alertado. Todos os avisos e alertas foram ignorados.

Paul Jay: Por aqui, reza a narrativa oficial que os sunitas eram brutais e violentos (no Iraque), degoladores, torturadores. Praticamente não há noticiário sobre violência xiita contra sunitas (no Iraque). Mas, agora, a sua investigação mostra que o coronel Steele sempre esteve ativo na prática de torturas; e todos os relatórios de Steele eram entregues diretamente a Rumsfeld. Ninguém pode dizer que os mais altos escalões do governo não soubessem do que se passava no Iraque.

Maggie O’Kane: Em certo sentido, foi até pior que isso. O trabalho do hoje aposentado coronel Steel era supervisionar vários dos centros de detenção e tortura. Acreditamos que tenha chegado a haver 13 desses centros, centros secretos de tortura, para onde eram mandados os detidos. Vários desses detidos nada tinham a ver com a insurgência.

Não há dúvidas de que estava implantado ali um processo, uma rotina, na qual a tortura era meio para obter informação de “inteligência humana” [orig. Human Inteligence, HUMINT] que pudesse ser usada pelos norte-americanos e pelos “commandos” especiais de grupos xiitas, coordenados pelos EUA. Em vários sentidos era, sim, processo altamente organizado. Não temos dúvidas – e o documentário comprova – que o coronel Kaufmann, que reportava diretamente ao general Petraeus, e o coronel aposentado Steele sabiam perfeitamente dos centros de tortura e do que lá acontecia e entregaram aos seus superiores listas de pessoas que haviam sido sequestradas e torturadas exclusivamente para extrair informação.

Paul Jay: Tortura é crime de guerra. Vi, no seu documentário, que o coronel Steele não apenas não foi preso e julgado como, de facto, foi condecorado. O seu filme leva à conclusão de que é preciso levar aos tribunais, para julgamento, não só o coronel Steele mas toda a cadeia de comando envolvida nesse tipo de tortura?

Maggie O’Kane: O nosso documentário visa apenas expor factos que puderam ser investigados e confirmados. Em todo o nosso trabalho, a maior dificuldade sempre foi a distância que há entre militares dos EUA nessa área e os commandos de iraquianos que matavam em campo, mesmo que com armamento, munição e espionagem que lhes era fornecida por norte-americanos. Havia uma espécie de “negabilidade à distância”1. Procuramos usar o nosso trabalho de jornalismo de investigação para estabelecer que, sim, havia relações entre eles, ouvir pessoas que viveram dentro desses centros de detenção e tortura sobre as relações que mantinham com militares dos EUA; saber qual, especificamente, era o papel do coronel aposentado Steele e do coronel Kaufmann. Isso feito, o nosso trabalho, como jornalistas, você sabe, foi apenas expor os factos.

Agora, há perguntas a serem feitas. Quero dizer... Uma das perguntas que gostaria de fazer é por que a imprensa-empresa nos EUA – com o devido respeito a vocês – mas... Por que todos relutam em seguir adiante, a partir das provas que reunimos nessa investigação que se estendeu durante 17 meses? Talvez... As pessoas desejem esquecer tudo isso. De facto, não são perguntas que nos caiba fazer, a nós, à equipa com a qual trabalhei. O nosso trabalho é recolher a informação e obter provas e depoimentos de quem viu acontecer. Acho que o filme reúne material substancial para provar que, sim, os EUA têm muitas questões a responder.

Paul Jay: É. Prometo perguntar a uns e outros por aí. Nós, do “The Real News Network” não tivemos e não temos qualquer problema, e acompanhamos regularmente o trabalho de vocês. Mas, sim, não há dúvida, grande parte da imprensa nos EUA não trabalha assim. Vai-se ver, estão todos a fazer o que o presidente Obama mandou: “olhar adiante, não olhar para trás”. Disse também que não permitiria investigação, nem de atividades ilegais. Há muitas provas de que houve tortura em vários casos, nenhum deles objeto de processo ou investigação.

Maggie O’Kane: Um dos factos que comprovámos, ao mesmo tempo fascinante, para qualquer jornalista, e também muito deprimente, é que o coronel Steele começou a trabalhar em El Salvador em 1984, recolhendo informações naquele país e, essencialmente, pelo mesmo processo. Seria importante que os EUA investigassem tudo isso...

Na verdade, trabalhando como correspondente estrangeira e correspondente de guerra, o que se aprende é que... – há um idioma inteiro só de eufemismos, quase tudo que tenha a ver com contrainsurgência e coleta de informações de segurança. Em todos esses casos, fala-se, sempre, de tortura. Estamos a falar, aqui, de iniciar uma guerra civil no Iraque. E digo, como quem fez 17, 18 filmes lá, e sinto que o legado deve ser o que aprendemos dos nossos erros.



1 Sobre “negabilidade” ver Scahill, Jeremy, 21/9/2010, redecastorphoto em: “Blackwater & Co. – A negabilidade total”.



- A partir de:  Esquerda.net



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Em homenagem aos inominados




Os 10 anos


1 - Os 10 anos do 11 de Setembro de 2001 foram (serão) profusos em divulgações, debates, imagens e cerimónias (à semelhança dos 9 anteriores).
- Já os mesmos 10 anos do 7 de Outubro de 2001 e os 8 anos do 19 de Março de 2003 (assim como certamente os 10 anos), não tiveram (ou não terão) esse privilégio.
(O 07/10/2001 e o 19/03/2003; datas sem qualquer carga simbólica, nem relevância, pelo menos no ocidente, ao contrário do 11/09/2001 – foram os dias da invasão do Afeganistão e do Iraque respectivamente –, este facto só por si, é já bastante significativo).

- Os títulos de inúmeros artigos, repetem, até à exaustão, as ideias-chave difundidas nos (e pelos) EUA e mundo ocidental:
- “11 de Setembro o dia em que o mundo mudou para sempre”,
- “11 de Setembro o dia do atentado terrorista mais mortífero da história”,
- “11 de Setembro o atentado terrorista mais brutal da história”,
- “11 de Setembro o dia em que tudo mudou”,

- Ficámos ainda a conhecer todo o tipo de dados e pormenores – divulgados à escala planetária:
- “1 283 milhões de dólares aprovados pelo Congresso para 'operações militares, segurança de base, reconstrução, ajuda externa, custos de embaixada e saúde dos veteranos' após o 11/09 ...”,
- “10 mil bombeiros, polícias e civis que responderam ao ataque no World Trade Center (WTC) têm stress pós-traumático”,
- “6 700 milhões de dólares foi o custo estimado em 2002 para a reconstrução das Torres Gémeas”,
- “10 858 pedaços de corpos humanos encontrados nos dias dos ataques”,
- “1 506 toneladas de destroços removidas do local”,

- Por oposição, os dados sobre os 8 anos de invasão do Iraque – divulgados pelo invasor – escasseiam (assim como escassearão sobre os 10 anos, por antecipação). Os EUA sempre se recusaram a fornecê-los – em particular os dados sobre o nº total de vítimas iraquianas.
- Fontes oficiais americanas, chegaram a alegar que “não contabilizavam terroristas ...”. Isto num contexto em que os terroristas eram (são) eles próprios – os invasores.

- Os mais de 1 milhão de mortos e os mais de 4 milhões de desalojados e refugiados, são as vítimas de uma campanha de propaganda mundial – construída a partir de 1 punhado de mentiras e de documentos forjados.
- Naquilo que constitui, seguramente, 1 dos maiores embustes da história (gozando os responsáveis de total impunidade – os imperadores não reconhecem as Leis Internacionais e são inimputáveis).

- E, devido a 1 qualquer acidente geográfico, o Iraque não fica situado no “civilizado” Ocidente (assim como o Afeganistão), logo os seus habitantes não gozam do estatuto de pessoas de direito próprio – são, antes, coisas ou seres de 2ª (descartáveis), sem direito ao escrutínio e à memória que outros têm, ou merecem …


2 – Por curiosidade, segue-se uma lista de alguns (36) programas/documentários, acerca do 11 de Setembro (a propósito do 10º aniversário do atentado), - difundidos mundialmente.
(A lista – extensa, embora não completa – é apenas referente às exibições de canais “temáticos”, sem qualquer referência aos canais “generalistas”, ou não, nem à imprensa de cada país …).

- Cada programa/documentário, a seguir referido, tem geralmente uma duração de 45' a 1h . Os títulos, assim como os resumos/descrições, são os fornecidos pelas estações.

- Canal National Geographic:

1 - “G. Bush e o 11 de Setembro” - “A entrevista com G. Bush sobre as suas memórias do 11 de Setembro...”,
2 - “O 11 de Setembro e o Sonho Americano” - “ Este filme é em memória pela perda do Centro de Negócios ...”,
3 – “Mohamed – O espião de Bin Laden”,
4 – “Giuliani – Ao comando do 11 de Setembro”,
5 - “O meu 11 de Setembro” - “Revisita o dia de pessoas que viveram o 11 de Setembro, como por exemplo o lavador de vidros do 93º andar do WTC ...”,
6 - “Bastidores – Na terra dos Talibã” - “Durante 8 anos os Talibã e a Al-Qaeda foram 1 obstáculo para as tropas do Estados Unidos e para a NATO ...”.

- Canal Odisseia:

7 - “O efeito tóxico do 11 de Setembro” - “No dia 11 de Setembro o mundo acordou com o atentado terrorista mais mortífero da história ...”,
8 - “Massoud – O afegão do destino” - “O afegão que morreu a 9 de Setembro de 2001 ...”,
9 - “11 de Setembro: Chamadas a partir das torres gémeas” - “Com o atentado terrorista mais brutal da história ...”,
10 - “11 de Setembro – Estado de Emergência” - “A 11 de Setembro o mundo mudou para sempre”,

- Canal História:
(Série de programas com o tema : “11 de Setembro, o dia em que tudo mudou”)

11 - “Dez formas de matar Bin Laden”,
- Episódio 1 - “O homem mais procurado da história ...”,
12 - “Dez formas de matar Bin Laden”,
- Episódio 2 - … ,
13 - “Abu Musad Al-Zarqawi, o porta-voz da Al Qaeda”,
14 - “11 de Setembro, 10 anos depois” - “... contamos a história da reconstrução da zona zero através de 5 pessoas ligadas aos trágicos acontecimentos... o operário que perdeu o irmão ...”,
15 - “102 minutos que mudaram os EUA” - “Programa cujo material provém ... de fotografias, vídeos, e filmagens de amadores, mensagens de voz gravadas ...”,
- Episódio 1,
16 - “102 minutos que mudaram os EUA”,
- Episódio 2,
17 - “Como vivemos o 11 de Setembro” - “... revivemos os factos a partir de testemunhas e jornalistas do panorama informativo espanhol e português ...”,
18 - “Memória do 11 de Setembro” - “... Na zona zero as duas praças estarão rodeadas de 1 parapeito de bronze com os nomes das quase 3 mil pessoas que perderam a vida … No programa irá guiar-nos o arquitecto Michael Arad ...”,
19 - “11 de Setembro, os dias seguintes” - “Já passaram 10 anos desde que a idade do terror começou a sério … desde então nunca é demais dizer que o 11 de Setembro 'mudou tudo' e que 'nada voltaria a ser o mesmo' … as mudanças foram culturais, sociológicas, intelectuais, emocionais e psicológicas, não só em Nova Iorque, mas em todo o mundo ...”,
- Episódio 1,
20 - “11 de Setembro, os dias seguintes”,
- Episódio 2,
21 - “Sobrevivi ao 11 de Setembro” - “3 cidadãos espanhóis e 1 português relatam-nos como viveram os trágicos atentados do 11 de Setembro ...”,

- Canal Discovery Channel:

22 - “Ground Zero: A reconstrução” - “Veja as características que irão tornar o 'One W. T. C.' tão singular: os elevadores mais rápidos dos EUA, sustentabilidade sem precedentes e uma espiral de 130 metros”
- Episódio 1 - “Reclamando o horizonte”,
23 - “Ground Zero: A reconstrução”,
- Episódio 2 - “Reclamando o horizonte”,
(Como curiosidade, a seguir a este 2º episódio passou 1 programa intitulado: “Armas de última geração – Choque e Admiração”, com a descrição: “Ninguém consegue igualar o armamento do exército americano.[prosseguindo com uma pergunta] Mas qual será melhor: 1 submarino nuclear USS Texas, ou ...”),
24 - “Ground Zero: A reconstrução – Um lugar de luto” - “A pressão aumenta para que o 'Memorial Plaza' seja terminado a tempo do 10º aniversário dos atentados, onde poderão ser encontradas Fontes gigantes e uma floresta de 400 árvores”,
25 - “Ground Zero: A reconstrução – Porta para Nova Iorque” - “À medida que a construção do 'One W.T.C.' continua, siga o progresso do 'Transportation Hub', que irá dotar a baixa de uma estação à altura da 'Grand Central'”,
26 - “Ground Zero: História dos destroços”,
27 - “Ground Zero: A reconstrução – Uma nova cidade” - “Conheça os homens e as mulheres cujo bairro ficou devastado pelo 11 de Setembro, e saiba como reconstruíram as suas casas e negócios. Explore o lado Este do 'One W.T.C'”,
28 - “Ground Zero: A reconstrução – Reconstrução do metro de Nova Iorque” - “Foster vai a Nova Iorque para investigar o mais importante projecto da história da cidade, a expansão do metropolitano no valor de 15 mil milhões de dólares”,
29 - “Situação Crítica – A emboscada da Al-Qaeda”,
30 - “Situação Crítica – O motim dos Talibã”,
31 - “Segundos Fatais – 11 de Setembro” - “Força aérea, segundos após o desastre: 9/11 segundo a segundo ...”,
32 - “A Primeira hora” - “11 de Setembro: A primeira hora começa por traçar o percurso do 9/11 ...”,
33 - “Contagem regressiva” - “Por dentro do 9/11 – Na segunda hora o relógio inicia a contagem para a hora zero ...”,
34 - “A Hora H” - “Por dentro do 11 de Setembro: Terceira hora regista com todo o detalhe o que exactamente aconteceu no trágico dia do 11 de Setembro ...”,
35 - “A Última hora” - “11 de Setembro: Quarta hora, a última e talvez a mais intensa desta série ...”,
36 - “Bastidores do 11 de Setembro” - “11 de Setembro – A guerra continua, acompanha a evolução da Al-Qaeda ...”.

- Como é assinalado, não há qualquer referência às horas dedicadas ao 11 de Setembro pelos outros canais (programas, reportagens, debates, imagens, etc), ou pela imprensa em cada país – afinados, quase completamente, pelo mesmo diapasão ...

- As anteriores descrições/resumos de cada programa (fornecidos pelos canais), dão, só por si, uma ideia do seu teor assim como da quantidade de informações fornecidas;
.“As 10 formas de matar Bin Laden”,
. A história da reconstrução da 'zona zero',
. As características singulares do novo 'One W.T.C.',
.. os elevadores mais rápidos dos EUA,
.. Uma espiral de 130 metros,
.. A construção do 'Transportation Hub' …,
. Ficamos a saber que o 'Memorial Plaza' vai contar com fontes gigantes e com 400 árvores,
. Somos guiados (as) numa visita por – Foster – para conhecer; o mais importante projecto da cidade – a expansão do metropolitano, no valor de 15 000 Milhões de dólares …,
. Ficamos a conhecer a história dos destroços,
. Somos, também informados (as), de que na 'zona zero' as duas praças estarão (estão) rodeadas de 1 parapeito de bronze com o nome das quase 3 mil pessoas que perderam a vida,
. etc, etc.

- Além do manancial de dados (divulgados pelos media), já referidos;

. 1 283 milhões de dólares aprovados pelo Congresso …
. 10 mil bombeiros, polícias, …
. 1 506 toneladas de destroços, …


O Mito da Isenção


- Por oposição, os dados do atentado terrorista cometido a 19 de Março de 2003 (invasão do Iraque, seguida da sua ocupação), são praticamente ignorados pelos EUA e claro em consequência, pela quase totalidade da Europa e do Ocidente em geral.

- Será a magnitude do atentado do 11 de Setembro superior, e mais grave, do que a do atentado do 19 de Março?

- Serão as 2 958 vítimas do 11 de Setembro, mais inocentes do que as mais de 1 Milhão do 19 de Março?

- Porque é que a chuva de bombas e mísseis de cruzeiro, lançados pela Força Aérea e Marinha dos EUA, sobre Bagdade – só no 1º dia (“Dia-A”), (300 a 400), numa operação intitulada pelos EUA, (seus autores e executores): “Choque e Pavor” - não é tão divulgada como os atentados às “torres gémeas”, e, é mesmo, praticamente desconhecida.
- Porque é que as imagens do “Dia-A” não têm o mesmo destaque, nos media, que têm os aviões a embater no W.T.C.?
- Há uma resposta que parece óbvia, a maciça “chuva” de mísseis de cruzeiro e bombas, que caiu sobre Bagdade no “A-Day” - classificada por um jornalista de uma estação de televisão americana como (Bagdade) parecendo o “inferno na terra” - são 1 incómodo para os EUA (e aliados), logo à que eliminá-las …

(Parece ainda haver 1 outro objectivo – a repetição, ilimitada, dos embates nas torres permite uma identificação emocional dos espectadores com as vítimas, e, simultâneamente salientar a mensagem de (auto) vitimização dos (pelos) EUA .
Mensagem que se pretende sobrepor a todos os acontecimentos posteriores (subalternizando-os) – pretendendo-se, desta forma (com a vitimização dos EUA), um efeito de desresponsabilização dos seus posteriores actos criminosos - invasão e ocupação (ilegais) do Afeganistão e do Iraque, assim como de todo o tipo de violações de direitos humanos e das leis internacionais).

- Há, uma óbvia filtragem das informações, das imagens e das mensagens.
- Em selectivas campanhas de, “informação” mediática.
- Enfatizam-se e empolam-se uns acontecimentos, enquanto se eliminam ou obliteram outros.

- A isenção e a imparcialidade dos media, e seus agentes, não passam senão de mitos …


Alguns dados …


- Seguem-se alguns dados, e informações, relativos à invasão e à ocupação do Iraque.
(Que não mereceram, merecem ou merecerão, notícias ou destaques nos media ...).

- A 19 de Março de 2003, 1º dia da invasão pelos EUA do Iraque – intitulado pelas chefias militares “A-Day” -, a Força Aérea e a Marinha americanas, lançaram 300 a 400 mísseis de cruzeiro (num só dia).
- “Mais do que se lançaram nos 40 dias da 1ª guerra do Golfo”. “A chuva de bombas foi tão forte, em ataques tão devastadores – a envergadura deste projecto nunca se viu antes ...”. Declararam fontes, militares, oficiais americanas.
- A tal operação - baseada na doutrina de Harlan Ullman (1 dos seus mentores) recorre, segundo este, ao uso do “poder esmagador” - atribuíram o significativo nome de “Operação Choque e Pavor”. Harlan Ullman, esclarece, “este [ataque] tem o efeito semelhante ao lançamento simultâneo de armas nucleares em Hiroshima – mas não lançadas em dias ou semanas, mas [sim] em minutos ...”.
“Além disso [continua], acaba-se com a cidade [Bagdade], ou seja despoja-se de electricidade, de água e começa uma campanha de desgaste; que ao fim de 2, 3, 4 ou 5 dias, está física, emocional e psicologicamente esgotada”.




- Cerca de 1 220 580 de mortes (estimativas de 2007).
. Uma pesquisa da Opinion Research Business, conduzida entre 12 e 19 de Agosto de 2007, estimou em 1 220 580 o número de mortes violentas devido à guerra no Iraque (entre 733 158 e 1 446 063).
. A revista The Lancet, num estudo das baixas após a invasão do Iraque, apontava dados idênticos.
. Os EUA não fornecem dados, tendo chegado a afirmar fontes oficiais (nos EUA ou no Iraque), que “não contabilizavam a morte de terroristas” …

- Sobre dados de saúde:
. Joseph Chamie, ex-director da Divisão da População da ONU e 1 especialista sobre o Iraque, afirmou que em relação aos cuidados de saúde, em 1991 o Iraque “estava na crista da onda” e que “agora parece 1 país da África sub-saariana”. (The World's Humanitarian News Site)

.. Cerca de 60% a 70% das crianças iraquianas (as que não morreram com a guerra) sofrem de problemas psicológicos. (idem).

- Cerca de 86% dos iraquianos não têm acesso a água potável.

- Cerca de metade dos médicos iraquianos abandonou o país desde 2003.

- Há cerca de 4,2 milhões de refugiados iraquianos.
. O “Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados”, estimou, a 21 de Junho de 2007, existirem mais de 4 milhões de refugiados – 4,2 milhões.
.. Sendo 2,2 milhões externos (para países vizinhos, essencialmente), e 2 milhões internos (deslocados internamente).
. Vivendo uma grande parte destes refugiados em comunidades empobrecidas e com pouca ou nenhuma atenção ou cuidados internacionais.

. Estimativas, apontam que só na Síria cerca de 50 000 mulheres e raparigas iraquianas, refugiadas, muitas delas viúvas - são forçadas à prostituição para sobreviver.

- A Human Rights Watch em 2006, estimava que cerca de 2 000 médicos iraquianos tinham sido mortos ou assassinados desde a invasão em 2003.

- Segundo a ONU cerca de 40% da “classe média” iraquiana fugiu do Iraque, após a invasão.

- Num relatório da Cruz Vermelha e, também, do Crescente Vermelho intitulado “Civis sem protecção: a crise humanitária sempre pior no Iraque”, de 11 de Agosto de 2007, é afirmado que milhões de iraquianos estão em situação desastrosa e com tendência para o agravamento.

- Enfim, podia-se continuar, por exemplo, com os relatos dos corpos e de pedaços de corpos (estes não contabilizados …) das dezenas ou centenas de iraquianos mortos diariamente, que jazem pelas casas e pelas ruas (por vezes) durante dias, decompondo-se, sem serem recolhidos. Muitos deles com visíveis sinais de maus tratos ou tortura …

- Em resultado da – ilegítima e ilegal – invasão e ocupação do Iraque, este encontra-se em grande parte em ruínas; com estruturas e infraestruturas em destroços;
- Escolas,
- Hospitais,
- Estradas,
- Pontes,
- Habitações,
- Cidades,
o que revela uma escala de destruição avassaladora.

- Além de uma, gravíssima, situação de caos humanitário (para os iraquianos).

- Factos que tornam, não só em relação à escala de destruição como em relação ao desastre humanitário, a situação iraquiana – absolutamente – incomparável ao 11 de Setembro.
Aliás, os ataques e atentados, diários, no Iraque – assim como as dezenas ou centenas de mortos e feridos, daí resultantes – há muitos anos que deixaram (ou praticamente deixaram) de ser notícia. Tornaram-se banais. Não têm qualquer relevância, tanto jornalística como humana.


Fallujah


- Esta cidade iraquiana, em 2003, antes da invasão, tinha uma população que rondava os 300 000 habitantes. Em 2004 a força ocupante no seu 2º ataque à cidade – numa operação militar intitulada, pelos seus responsáveis (militares) americanos, “Fhantom Fury” (“Fúria Fantasma”) - quase erradicou a cidade.

- Segundo o jornal britânico The Guardian, 36 000 das 50 000 casas foram destruídas, juntamente com 60 escolas e 65 mesquitas.
(Tendo, segundo algumas fontes, o que restou, ter ficado parcialmente destruído (ou com danos), como as infraestruturas da cidade – ruas, estradas ...).

- Segundo algumas fontes e testemunhas, morreram cerca de 15 000 iraquianos, em consequência do ataque.

- Segundo dados oficiais, do invasor, morreram 95 soldados americanos.

- E, o ataque, provocou ainda cerca de 150 000 refugiados.

- Ataque, onde, foram utilizadas armas químicas – como o fósforo branco – facto inicialmente negado pelos responsáveis americanos.
(Em violação das Convenções de Genebra - “Convention on Conventional Weapons” (Protocol III)).

- Afinal, prova-se que, sempre há armas de destruição maciça no Iraque – foram para lá levadas pelos EUA e utilizadas pelo seu exército.





Imagens do massacre de Fallujah – com testemunhos de militares americanos envolvidos no ataque. E com imagens da utilização de fósforo branco pelo exército americano.



Terroristas e inimputáveis
(Ou “piratas e imperadores” …)


- Há uma diferença fundamental entre as duas datas – ela reside entre quem perpetra o terrorismo.

- Num caso foi perpetrado pela Al-Qaeda e Bin Laden (que por acaso noutros tempos gozaram da simpatia e do apoio norte-americanos) - por “piratas” (a partir de Chomsky). E no outro foi (é) perpetrado pelos EUA (e Inglaterra) – por “imperadores” (ainda, a partir de Chomsky) – essa é a diferença fundadora e “legitimadora” de todas as diferenças …

- (Recuando um pouco no tempo) A invasão do Iraque foi decidida pelos EUA (com o apoio dos chefes de estado da Grã-Bretanha, Espanha, Itália e Portugal), com base numa gigantesca farsa “documental”.
- Kofi Annan, então secretário-geral da ONU, disse que a invasão “não respeitou a Carta das Nações Unidas e que esta (a invasão) tinha sido ilegal” - e que foi feita à margem da ONU.

- A superpotência mundial, vê-se como 1 estado acima da Lei Internacional. A superpotência faz a lei, ou molda-a, em função dos seus interesses e objectivos.

- Mais alguns dados;

- Em 1986, após uma condenação feita pelo Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), (ONU), aos EUA – de violação do Direito Internacional, por actos terroristas (caso Nicarágua). Estes em resposta, retiraram a jurisdição compulsória daquele tribunal sobre o seu país. Afirmando, apenas aceitar a Jurisdição do TIJ “numa base caso a caso” (ou por outras palavras, aceitar apenas as decisões que quiserem ou que lhes convier).
- O Secretário (americano) George Shultz, acerca da decisão do TIJ de condenação dos EUA, troçou daqueles que defendem “meios utópicos e legalistas com mediação externa, a ONU e o TIJ, ao mesmo tempo que ignoram o elemento 'poder' da equação”. (1)

- Também em relação ao Tribunal Penal Internacional (TPI), os EUA não assinaram (ou ratificaram) o “Estatuto de Roma” do TPI – indicando, que não pretendiam ser estados membros (do TPI) – e como tal permanecem sem qualquer obrigação (ou vinculação), perante decisões oriundas deste Tribunal Internacional. Os EUA, foram acompanhados por Israel e o Sudão.
(O “Estatuto de Roma” do TPI foi aprovado e adoptado em 17/07/1998, com 120 votos a favor, 7 votos contra e 21 abstenções – os 7 países que votaram contra foram: China, Iraque, Israel, Qatar, EUA e Iémen).

- O TPI não tem jurisdição universal devido à oposição dos EUA.

- A doutrina de Estado fora-da-lei, ou estado pária (citando Chomsky), foi, também, defendida por Clinton na ONU (a 27 de Setembro de 1993), onde afirmou que os EUA actuariam “multilateralmente quando possível, mas unilateralmente quando necessário” (2). Posição reiterada 1 ano depois por M. Albright, embaixadora na ONU, anunciando que; os EUA actuarão “multilateralmente quando pudermos, e unilateralmente quando formos obrigados” em áreas “que reconhecermos como vitais para os interesses nacionais americanos” (3).

- Em 1999, o Secretário de Defesa William Cohen declarou que os EUA estão empenhados no “uso unilateral do poderio militar” na defesa dos seus interesses vitais, incluindo “a garantia do acesso irrestrito a mercados essenciais, fontes de energia e recursos estratégicos” e a tudo o que Washington determinar como estando dentro da sua “jurisdição interna”. (4)

- Colin Powell afirmou no “Fórum Económico Mundial” (pouco antes da invasão do Iraque); “Quando sentirmos que devemos fazer algo, fazêmo-lo, mesmo que ninguém nos acompanhe”. (5)

- Bush fez várias afirmações idênticas (além de ter apresentado o conceito - ilegal, segundo a legislação internacional - de guerra preventiva).

- Portanto, a invasão e ocupação do Iraque em que os EUA actuaram (e actuam) à margem e acima das Leis Internacionais (e de acordo com os seus interesses) – como um país fora-da-lei (à margem da ONU e contra a ONU, a carta das Nações Unidas, o Tribunal Internacional, Convenções de Genebra) – estão em conformidade com a doutrina oficial e pública dos EUA (citando ainda Chomsky).

- No Afeganistão, estima-se em cerca de 40 000, o número de mortos civis após a invasão (e até ao momento).

(Se se recuasse mais no tempo, seria necessário referir, por exemplo;
- Os cerca de 4 Milhões de mortos em resultado da ocupação do Vietname (além dos milhões de feridos e estropiados).
Onde foram despejadas mais de 1 Milhão de toneladas de bombas – pelos mais de 5 000 aviões e helicópteros americanos. E o uso de armas químicas (em doses maciças), como o napalm, lançado sobre florestas, povoações, homens, mulheres, crianças. Em crimes hediondos …
. O Cambodja, o Vietcongue, o Laos, …,
- As centenas de milhar de mortes na Guatemala, levadas a cabo pela ditadura militar instalada pela CIA, para defender os interesses dos EUA, suas empresas e corporações (além dos mais de 100 000 desaparecidos) – após golpe de estado (instigado pela CIA) contra presidente democraticamente eleito,
- Os golpes militares na América Latina e as ditaduras militares que se seguiram, instigados (as) e/ou apoiados (as) pela CIA e EUA (Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Brasil, …), e de onde resultaram mais de 60 000 mortos, mais de 30 000 desaparecidos e cerca de 
400 000 presos (e torturados) – com a promoção e implementação dos mais tenebrosos crimes,
- etc, etc, etc),

- Os EUA apresentam-se, no plano internacional, como o paradigma do país para quem a lei se encontra na “ponta das baionetas” (ou nos mísseis, nos F-16, nos tanques, nos helicópteros “Apache”) e não no respeito do Direito Internacional.
(Paradigma que partilha, quase em exclusivo, com o seu estado-cliente – Israel.
Este, violando sistematicamente e impunemente – há dezenas de anos – dezenas de resoluções da ONU, cometendo todo o tipo de violações e crimes sobre a Palestina e o seu povo. Contando, para tal, com o abrigo e a protecção do guarda-chuva dourado dos EUA - reduzindo a pó tudo o que é Direito Internacional).

- Revelando-se, desta forma, estes 2 países como as principais ameaças ao direito e à paz internacionais!



- O mais de 1 milhão de mortos no Iraque e os mais de 4 milhões de refugiados iraquianos, apesar de tão inocentes como as 2 958 vítimas do WTC, não têm o mesmo estatuto de humanos que estas últimas. Estão a 1 nível diferente!

- E, os responsáveis dos atentados no Iraque, ao contrário dos responsáveis dos atentados do WTC, não tiveram – nem têm – a cabeça a prémio, nem se “procuram vivos ou mortos”. Apesar dos seus crimes serem mais graves e de dimensões incomparavelmente superiores.

- A chamada “luta contra o terrorismo”, foi ainda pretexto para todo o tipo de abusos, e, violações dos direitos humanos; maus tratos, tortura – Abu Ghraib, Guantánamo, o rapto de cidadãos inocentes (e os voos “secretos” da CIA), a criação (ou manutenção) das prisões “privadas do Império”, …





Documentário da HBO sobre as torturas em Guantanamo e Abu Ghraib


_____






__________



- Ficámos a saber que a lista das 2 958 vítimas do WTC, foi lida em cerimónia pública – de dimensão planetária - durante, cerca de,
4h 20'.

- Se as mais de 1 milhão de vítimas iraquianas tivessem o mesmo privilégio – seriam necessárias mais de 1 465h, ou seja, mais de 2 meses (ininterruptos).




- Em homenagem às vítimas, cujos nomes não vão ter o direito a ser gravados a bronze em qualquer memorial!


___________________________________


(1) – George Shultz, “Moral Principles and Strategic Interest”, palestras na Kansas State University, 14 de Abril de 1986, reeimpresas em U S Dep. of States, …
(2) – Bill Clinton, discurso perante a Assembleia Geral da ONU, 27 de Setembro de 1993.
(3) – Middle East International, 21 de Outubro de 1994.
(4) – W. Cohen, Annual Report to the President and Congress: 1999 (Depart. de Defesa 1999).
(5) – Wall Street Journal, 27 de Janeiro de 2003.


____________________






             Os EUA no Iraque - pela WikiLeaks