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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Apologia da “ingenuidade” ...








- (Citando Chomsky) A forma eficaz de combater (de facto) o terrorismo é deixar de o apoiar – [e praticar] …






- Como a importância e relevância dos discursos e posições são inversamente proporcionais à sua difusão (no “civilizado” ocidente) – aqui ficam algumas (alguns) que os obedientes ,e auto-disciplinados, rafeiros enterteiners (que se dão pelo nome de “jornalistas”) estoicamente ignoram e obliteram da opinião pública ...


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2- Discurso de Hassan Rouhani (Presidente da República Islâmica do Irã) na 69ª sessão da Assembleia Geral da ONU (a 25 de Julho de 2014)





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(Transcrição/tradução da intervenção, não oficial, realizada pelo pessoal da Vila Vudu - a partir de redecastorphoto)



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Senhor Presidente,
Excelências,
Senhoras e Senhores,

Graças a Deus, o Senhor dos Dois Mundos e Pregador, e que a paz esteja com nosso Profeta Maomé, sua família e seus companheiros.

De início, quero estender minhas sinceras congratulações por sua muito merecida eleição à presidência dessa 69ª Sessão da Assembleia Geral. E meus cumprimentos também a Sua Excia. Sr. Ban Ki-moon, por seus esforços.

É minha esperança sincera que a Sessão dessa Assembleia Geral desse ano leve o mundo, na sua situação atual crítica, um passo mais próximo da segurança e da tranquilidade para os seres humanos – que é, claro, um dos objetivos fundamentais da ONU.

Sr. Presidente,

Venho de uma região do mundo cujas muitas partes ardem hoje no fogo do extremismo e dos excessos. A Leste e a Oeste do meu país, extremistas ameaçam nossos vizinhos, recorrem à violência e derramam sangue. Não falam todos, é claro, uma mesma língua; não têm todos a mesma cor de pele, nem a mesma nacionalidade; e chegaram àquela parte do mundo, o Oriente Médio, provenientes de todo o mundo. Mas, sim, eles têm uma mesma ideologia: “violência e extremismo”. E têm todos, também, um único objetivo: “a destruição da civilização, gerando a islamofobia e criando campo fértil para mais intervenções de exércitos estrangeiros em nossa região”.

Lamento profundamente ter de dizer que o terrorismo é hoje globalizado: “De New York a Mosul, de Damasco a Bagdá, do mais extremo oriente ao mais extremo ocidente do mundo, da Al-Qaeda ao Daesh”. Os extremistas do mundo se encontraram uns os outros e conclamam: “extremistas de todo mundo uni-vos”. Mas e nós? Estamos unidos contra os extremistas?!

O extremismo não é questão regional com a qual só as nações de nossa região tenham de lidar: o extremismo é uma questão global.

Alguns estados ajudaram a criar o extremismo e hoje já não conseguem enfrentá-lo ou controlá-lo. E atualmente os nossos povos estão pagando o preço.

O antiocidentalismo de hoje é fruto do colonialismo de ontem.

O antiocidentalismo de hoje é reação contra o racismo de ontem.

Algumas agências de inteligência puseram punhais nas mãos de possessos que hoje já não poupam ninguém. Todos os que tiveram qualquer função na criação desses grupos terroristas e no apoio que deram a eles devem reconhecer os próprios erros que levaram ao extremismo. Têm de pedir desculpas não só à geração passada, mas também à geração futura.

Para combater as causas subjacentes do terrorismo, é preciso conhecer suas raízes e fazer secar suas fontes. O terrorismo germina onde reine a miséria, o desemprego, a discriminação, a humilhação e a injustiça. E cresce com a cultura da violência. Para erradicar o extremismo é preciso distribuir desenvolvimento e justiça e corrigir as distorções dos ensinamentos divinos postos hoje para justificar brutalidade e crueldade. A dor é aumentada quando esses terroristas espalham sangue e morte em nome da religião, ou degolam em nome do Islã.

O que querem é manter ocultada a incontroversa verdade da história que se baseia nos ensinamentos de todos os profetas divinos, de Abraão e Moisés e Jesus a Maomé (que a Paz esteja com Ele), para os quais tirar uma única vida inocente equivale a assassinar toda a humanidade.

Espanta-me imensamente que esses grupos de assassinos se declarem grupo islâmico. E mais ainda me surpreende que a imprensa-empresa ocidental, alinhada com aqueles assassinos, repita essa mentira, repetição que provoca a ira de todos os muçulmanos.

O povo muçulmano que todos os dias relembra Deus como o Mais Generoso e o Mais Compassivo, e que tantas lições de bondade e empatia aprendeu de seu Profeta, toma essa difamação diária como parte de um projeto para disseminar a islamofobia.

Os fracassos e erros estratégicos do Ocidente no Oriente Médio, Ásia Central e Cáucasos converteram essas partes do mundo em abrigo seguro para terroristas e extremistas.

A agressão militar contra o Afeganistão e contra o Iraque e a interferência imprópria e indevida nos desenvolvimentos na Síria são exemplos claros da abordagem estratégica errada no Oriente Médio.

Como abordagem não pacífica, a agressão e a ocupação atacam a vida e os espaços de moradia e sobrevivência de pessoas comuns; a agressão e a ocupação resultam em consequências comportamentais e psicológicas de aversão, que hoje se manifestam sob a forma de violência e morte no Oriente Médio e no Norte da África, a ponto, mesmo, de atrair para lá cidadãos de outras partes do mundo. A violência atualmente se difunde para todos os cantos do mundo, como doença contagiosa.

Nós sempre acreditamos que a democracia não pode ser transplantada de terras distantes; democracia é resultado de desenvolvimento e crescimento; não é resultado de guerra e agressão. Democracia não é item de exportação que possa ser comercialmente exportado do ocidente para o oriente. Numa sociedade subdesenvolvida, democracia importada só gera governos fracos e vulneráveis.

Quando generais põem os coturnos numa região, que não esperem ser recebidos com afeto pelos diplomatas: quando a guerra começa, a diplomacia tende a parar. Quando a atmosfera no Oriente Médio for de confiança e segurança, a resposta será, também de confiança e segurança. Mas se se impõem sanções, começa simultaneamente a implantar-se uma ira profunda contra os sancionadores.

Os interesses dos países ocidentais em nossa região estão associados ao reconhecimento de nossas crenças, por aqueles países; e ao reconhecimento por eles, também, de que nosso povo deseja governo democrático na região.

A experiência de criação da Al-Qaeda, dos Talibã, dos modernos grupos extremistas demonstrou que é possível servir-se de grupos extremistas como instrumento contra estado não amistoso e, ao mesmo tempo, fingir que não se veem as consequências de um extremismo sempre crescente. Causa grande perplexidade que se repitam os mesmos erros, apesar das muitas dolorosas experiências.

Relembremos que o Irã convidou todos para um “diálogo” antes dos atos criminosos de 11 de setembro; e que também clamamos por “um mundo contra a violência e o extremismo” antes que eclodissem as atuais atrocidades. Talvez, no passado, pouca gente fosse capaz de prever o incêndio que arde hoje. Mas agora o extremismo e a violência absolutamente fora de controle são ameaça iminente para o mundo.

É autoevidente que sem compreensão acurada de como se geraram as condições que há hoje, jamais encontraremos as solução certas. Hoje, mais uma vez, tenho de alertar contra a disseminação do extremismo e o perigo imposto pela compreensão inadequada e por qualquer abordagem errada desse fenômeno.

O Oriente Médio anseia por desenvolvimento e está farto de guerras. É direito natural dos povos das terras férteis do Oriente Médio viver em paz e prosperidade.

No passado, o colonialismo negou esse direito a eles e, hoje, a sombra da guerra e da violência ameaça a segurança daqueles mesmos povos.

Em nossa região há políticos moderados e elites que gozam da confiança do povo. Não são nem anti-Ocidente nem pró-Ocidente. Embora não esqueçam o papel que teve o colonialismo no atrasamento de suas nações, não esquecem que suas próprias nações são capazes de, elas mesmas, alcançar o desenvolvimento pelo qual anseiam.

Não que absolvam o ocidente pelos seus muitos erros e malfeitos, mas sabem ver também os próprios fracassos. Esses homens e mulheres podem assumir posições de liderança ativa e reunir à volta deles a confiança de suas respectivas sociedades, e estabelecer as mais potentes coalizões nacionais e internacionais contra a violência.

As vozes desses homens e mulheres são as verdadeiras vozes da moderação no mundo islâmico; a fala familiar de um afegão farto de guerras; de um iraquiano vítima do extremismo; de um sírio horrorizado com a ação de terroristas; de um libanês que é atormentado pela violência e pelo sectarismo.

Entendo que há erro estratégico, se países de longe da região se autoproclamem líderes de uma ou outra coalizão, exclusivamente para tentar proteger a própria hegemonia na região.

Obviamente, porque a dor é velha conhecida dos povos do Oriente, não dos que chegam de longe, a melhor coalizão possível será a que se forme na própria região, e que assuma sobre os próprios ombros a responsabilidade por liderar a luta contra a violência e o terrorismo. E se outras nações do mundo tiverem real desejo e interesse legítimo em agir contra o terrorismo, sempre poderão acorrer e apoiar a coalizão local.

Advirto que, se não soubermos aliar nossas forças contra o extremismo e a violência hoje, e se fracassarmos no trabalho de alistar os povos da região para que resistam contra o extremismo, amanhã o mundo já não será seguro para ninguém.

Sr. Presidente,

Ano passado, tentei cumprir o papel do meu país na realização da paz nos dois níveis, regional e internacional, e ofereci uma proposta sobre “um mundo contra a Violência e o Extremismo” – que mereceu apoio geral.

Na tumultuada, caótica região que é o Oriente Médio, o Irã é uma das nações mais tranquilas, seguras e estáveis. Mas todas as nações da região têm de manter em mente que estamos no mesmo barco. Assim, precisamos de ampla cooperação para tudo que tenha a ver com nossa vida social e política, e com questões de segurança e defesa, com vistas a alcançar compreensão durável e comum a nós todos.

Se já houvesse maior cooperação e melhor coordenação no Oriente Médio, milhares de palestinos inocentes não teriam tombado em Gaza, vítimas da agressão pelo regime sionista. Entendemos que a interação e a construção de confiança entre os estados da região é fundamentalmente essencial para a resolução de conflitos. Apoiamos qualquer medida que promova cooperação entre nações islâmicas para combater o extremismo, as ameaças e a agressão e, nesse campo, estamos preparados para cumprir nosso papel construtivo e positivo permanente.

Sr. Presidente,

As opressivas sanções impostas ao Irã prosseguem, na sequência de erro estratégico contra nação independente e moderada, considerado o delicado quadro geral em nossa região. Durante o ano passado, nos engajamos no diálogo mais transparente, para construir confiança em torno do programa nuclear iraniano para finalidades pacíficas. Abrimos agenda para negociações sérias e honestas, não como resultado de sanções ou efeito de ameaças, mas porque era desejo do povo do Irã que seu governo negociasse.

Somos de opinião que a questão nuclear só pode ser resolvida mediante negociação, e quem considere qualquer outra via comete erro grave. Qualquer demora que adie um acordo final só faz aumentar os custos; não só para prejuízo do Irã, mas também para prejuízo da economia de outras partes envolvidas e das possibilidades de desenvolvimento e segurança em nossa região. Ninguém deve duvidar de que concessões e acordos, nessa questão, sempre serão feitos com vistas ao melhor interesse de todos, sobretudo das nações da região.

As negociações nucleares entre o Irã e o Grupo 5+1 prosseguiram, ano passado, com seriedade e otimismo de ambas as partes. Segundo todos os observadores internacionais, a República Islâmica do Irã cumpriu, de boa fé, todos os compromissos que assumiu. Apesar disso, algumas das observações e ações de nossos contrapartes criaram algumas dúvidas sobre a determinação deles e o realismo da posição deles. Mesmo assim esperamos ainda que as negociações em andamento levem a um acordo final, no curto período de tempo que resta para negociar.

Estamos comprometidos a perseverar em nosso programa nuclear para finalidades pacíficas, inclusive com enriquecimento de urânio, e a usufruir plenamente todos os direitos nucleares que são nossos em território iraniano, nos termos prescritos pela lei internacional.

Estamos decididos a continuar as negociações com nossos interlocutores em honestidade e boa fé, baseados no respeito e na confiança mútuos, na remoção de todas as preocupações de ambos os lados, em pés de igualdade e reconhecidos todas as normas e princípios internacionais. Creio que os dois lados devem manter-se aderidos à estrita implementação dos compromissos. Evitar demandas excessivas nas negociações, por nossos contrapartes, é pré-requisito para o sucesso das negociações. Um acordo final sobre o programa nuclear para finalidades pacíficas do Irã pode servir como primeiro movimento de uma colaboração multilateral para promover segurança, paz e desenvolvimento em nossa região e além dela.

O povo do Irã, que tem sido submetido a pressões, especialmente nos últimos três anos, como efeito de continuadas sanções, não pode confiar em nenhuma cooperação de segurança entre seu próprio governo e os que impuseram aquelas sanções e criaram tantos obstáculos contra a satisfação das mais básicas necessidades do povo do Irã, como comida e remédios. As sanções criarão impedimentos ainda adicionais, no caminho de qualquer cooperação futura de longo prazo.

O povo do Irã é devotado a alguns princípios e valores no topo dos quais estão a independência, o desenvolvimento e o orgulho nacional. Nosso povo avalia o comportamento de seu governo pelos mesmos critérios. Se esse óbvio fato nacional não é compreendidos pelos nossos parceiros negociadores e eles cometem erros ofensas graves no processo, uma oportunidade histórica e excepcional será desperdiçada.

Como os senhores sabem, durante as negociações nucleares que estão em negociação nesse ano, o governo iraniano tomou algumas iniciativas que criaram novas condições favoráveis, que resultara, naquela fase, no Plano Conjunto de Ação de Genebra. Estamos determinados a continuar na nossa abordagem de construir confiança e oferecer máxima transparência nesse processo. Se nossos interlocutores estão igualmente motivados e são igualmente flexíveis, podemos superar o problema e alcançar acordo duradouro, mesmo no curto tempo que nos resta. Nesse caso, emergirá um ambiente inteiramente novo, para cooperação nos planos regional e internacional, permitindo maior foco em algumas questões regionais muito importantes como combater a violência e o extremismo na região.

Chegar a um acordo nuclear final e compreensivo com o Irã será oportunidade histórica para que o ocidente mostre que não se opõe ao avanço e ao desenvolvimento de outros países e não discrimina no que tenha a ver com respeitar leis e regulações internacionais. Esse acordo pode levar mensagem de paz e segurança, indicando que o modo pelo qual alcançar a resolução dos conflitos é a negociação e o respeito, nunca o conflito e a sanção.

Sr. Presidente, Senhoras e senhores,

Ano passado a grande nação do Irã participou de amplas, calmas, importantes eleições presidenciais, e endossou o discurso de “Antevisão, Esperança e Moderação Prudente”. Depois das eleições, o povo do Irã apoia o seu governo eleito nos esforços para construir o país. Enquanto alguns dos países em torno do Irã caíram presa da guerra e dos tumultos, o Irã permanece em segurança, estável e calmo.

A política baseada em princípios de meu governo existe para trabalhar na direção de interações construtivas com nossos vizinhos, baseada em mútuo respeito e com ênfase em interesses comuns. A noção de que o Irã buscaria controlar outros países na região é mito reposto em circulação em anos recentes, no contexto de um projeto iranofóbico. Os que dizem que o Irã buscaria controlar outros países carecem de inimigos imaginados, para manter vivas as tensões e semear divisões e conflitos e, assim, vão trabalhando para que os recursos nacionais não sejam aplicados no desenvolvimento do nosso país. Nós trabalhamos para pôr fim a essa iranofobia delirante, preparando as condições para construir parcerias estratégicas com nossos vizinhos.

Concluindo, ano passado alertei contra a expansão da violência e do extremismo. Esse ano volto a alertar: se a abordagem correta não for adotada para enfrentar as questões que se veem à nossa volta, nos aproximamos ainda mais de ter região turbulenta e tumultuada, o que terá repercussões em todo o mundo. A solução correta para as dificuldades que há nasce dentro da região e provê regionalmente as soluções necessárias; com o apoio internacional, sim, mas não vinda de fora da região.

Deus Todo Poderoso prometeu aos que creem e cumprem bem os próprios deveres, que Ele lhes garantiria a sucessão na autoridade sobre a terra, e que todos os medos dos homens e mulheres seriam convertidos em paz e segurança.

Minha mais sincera esperança é que nossa geração cumpra o seu dever e deixe um planeta mais seguro e desenvolvido, como legado dela à próxima geração. Desejo sucesso a todos.


Obrigado.




(Os sublinhados são da minha responsabilidade)



- A partir de: redecastorphoto






quinta-feira, 19 de setembro de 2013

"De Hiroshima à Síria: o inimigo cujo nome não queremos dizer", por John Pilger






(Divulgação)



terça-feira, 17 de setembro de 2013


De Hiroshima à Síria: o inimigo cujo nome não queremos dizer


11/9/2013, [*] John Pilger – johnpilger blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Na Grã-Bretanha, o golpe das imagens falsas e de falsas identidades políticas deu menos certo. Lá, parece, começa algum movimento de consciência. Mas que se apressem. Os juízes de Nuremberg foram bem claros: “Qualquer cidadão tem o direito de violar leis domésticas para impedir crimes contra a humanidade e contra a paz”. Toda a honra ao povo da Síria e a incontáveis outros. Os norte-americanos temos muito a aprender com eles.

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Na parede de meu escritório tenho emoldurada a primeira página do jornal Daily Express do dia 5/9/1945 e a manchete: “Escrevo, como um alerta ao mundo”.
Era a primeira linha da matéria de Wilfred Burchett sobre Hiroshima, a primeira que se leu no ocidente, escrita em Hiroshima, 30 dias depois do ataque norte-americano. Foi o furo jornalístico do século. 


Por causa dessa sua longa, perigosa viagem, que desafiou as autoridades da ocupação norte-americana, Burchett foi massacrado, sobretudo por outros jornalistas “incorporados” às tropas norte-americanas. A matéria denunciava que os EUA haviam cometido um ato de assassinato premeditado em massa, em escala gigantesca e iniciado uma nova era de terror.

Hoje, praticamente todos os dias, Burchett tem sua revanche. A criminalidade intrínseca do uso de armas de destruição em massa, que os EUA inauguraram, está todos os dias aí, ao alcance de todos os olhos, nos Arquivos Nacionais dos EUA e em décadas de militarismo camuflado como democracia. O psicodrama em que os EUA vivem mergulhados em tudo que tenha a ver com a Síria exemplifica tudo isso. Mais uma vez, o povo dos EUA foi capturado e é refém de uma ameaça terrorista ainda negada até pelos mais progressistas críticos das políticas dos EUA para o mundo. 

A terrível verdade jamais mencionada nos EUA é que o mais perigoso inimigo da humanidade vive “do lado de cá” do Oceano Atlântico. 

A farsa de John Kerry e as piruetas de Barack Obama são temporárias. O acordo de paz que a Rússia construiu para as armas químicas da Síria logo, e não demora, começará a ser tratado nos EUA com o desprezo que os militaristas dedicam à diplomacia. Agora, com os EUA já aliados à Al-Qaeda, e os golpistas armados pelos EUA já bem instalados no governo do Cairo, os EUA passam a dedicar-se a tentar esmagar os dois últimos estados independentes que restam no Oriente Médio: primeiro a Síria, depois o Irã.

“Essa operação [na Síria]”, disse o ex-ministro de Relações Exteriores da França Roland Dumas, em junho, “é antiga. Começou há muito tempo. Foi preparada, preconcebida e planejada”. Vídeo a seguir (em francês com legendas em inglês):







Num momento em que a opinião pública está “psicologicamente apavorada”, como disse Jonathan Rugman, do Channel 4, tentando explicar a absoluta rejeição, na população britânica, a um ataque militar contra a Síria, é absolutamente urgente e necessário repor, para a discussão pública, o “inimigo cujo nome não se pronuncia” nos EUA.

Não importa quem tenha usado armas químicas nos subúrbios de Damasco. São os EUA – não a Síria – os mais frequentes usuários dessas armas terríveis. Em 1970, o Senador Gaylord Nelson relatou ao Senado que: 
 
Os EUA lançaram sobre o Vietnã uma quantidade produtos químicos tóxicos (dioxina) que correspondeu a 2,73kg [orig. 6 pounds] por cabeça, contra a população. 

Foi a “Operação Hades” [Inferno], cujo nome adiante foi trocado para Operação Ranch Hand [Operação “Mão rancheira”], conforme a campanha de publicidade, que apresentava o uso de agentes químicos desfolhantes, o “agente laranja”, lançado de aviões sobre o Vietnã, como ajuda aos agricultores vietnamitas que estariam enfrentando pragas nas lavouras]; essa é a origem do que muitos médicos no Vietnã e em todo o mundo chamam de “um ciclo de catástrofe fetal”. Eu mesmo vi muitas crianças deformadas. John Kerry, com seu currículo de guerra encharcado de sangue também viu e deve lembrar.

Também vi crianças deformadas no Iraque, onde os EUA usaram armas de urânio baixo-enriquecido e de fósforo branco, como fizeram os israelenses em Gaza, que fizeram chover armas químicas de destruição em massa sobre escolas e hospitais da ONU. Nesses casos, não houve “linha vermelha” de Obama. Nem shows televisionados de piedade pelas vítimas.

O debate repetitivo sobre se “nós” devemos “agir” contra ditadores cuidadosamente selecionados é parte também da lavagem cerebral a que os norte-americanos somos submetidos. Richard Falk, professor emérito de Direito Internacional e Relator Especial da ONU para a Palestina, descreve o processo como: 
 
(...) modo autocomplacente, arrogante, de selecionar só imagens positivas e morais para divulgar valores ocidentais e inocência, e assim validar uma campanha de irrestrita violência política.
 
E é campanha tão ampla que: 

(...) resulta virtualmente indesmentível.   

E a mentira maior de todas é a dos “liberais realistas” na política anglo-norte-americana, de “especialistas” acadêmicos e da mídia, que se ordenam, eles mesmos, gerentes da crise mundial, quando, na verdade, são a causa dela. Os EUA estudam outros povos como se não fossem parte da mesma humanidade; se não servem aos desígnios da potência ocidental, são “estados falhados”, “estados-bandidos” ou “estados do mal” carentes de “intervenção humanitária”.

Um ataque contra a Síria ou contra o Irã ou contra qualquer dos “demônios” que os EUA criam para o mundo se resumiria a variante “da moda”, da tal “Responsabilidade de Proteger”, cujo garoto-propaganda é o ex-ministro australiano de Relações Exteriores, Gareth Evans, co-presidente de um “Centro Global” (Global Centre) que tem sede em New York. Evans e seus bem remunerados lobbyists têm papel crucial na propaganda para arrastar a “comunidade internacional” a atacar países nos casos em que “o Conselho de Segurança rejeita alguma proposta ou não consegue lidar com a ameaça”.

Evans é conhecido. Aparece em meu filme Death of a Nation, de 1994, que desmascara a escala do genocídio no Timor Leste. O sorridente homem de Canberra lá está, erguendo a taça de champagne num brinde ao ministro indonésio, com dois sobrevoando o Timor Leste em avião australiano, depois de terem assinado o tratado para saquear petróleo e gás do país destroçado, onde Suharto, o tirano indonésio, matou a bala ou de fome um terço da população. 

No governo de Obama, “o Fraco”, o militarismo cresceu talvez mais do que nunca antes. Sem que se veja um único tanque nos gramados da Casa Branca, houve um golpe militar em Washington. Em 2008, com seus devotos liberais secando as últimas lágrimas de “decepção”, Obama pôs-se sob o comando do Pentágono de George Bush: assumiu todas as suas guerras e seus crimes de guerra. 

Com a Constituição já substituída por um estado policial emergente, os mesmos que destruíram o Iraque com choque e pavor, que pilharam e saquearam no Afeganistão e que reduziram a Líbia a um pesadelo hobbesiano, são hoje os senhores e mandam e desmandam no governo dos EUA. Hoje, nos EUA, morrem mais soldados por suicídio, que nos campos de batalha. Só no ano passado, 6.500 veteranos de guerra dos EUA suicidaram-se. E haja bandeiras!

O historiador Norman Pollack chama de “fascismo liberal”. “Esses, do passo-de-ganso” – Pollack escreveu, – substituíram qualquer militarização aparentemente menos inócua da cultura nos EUA. E para liderá-los, bombástico, temos hoje o reformador fracassado, aplicadamente dedicado a organizar assassinatos, um a um ou em massa, e sempre exibindo sorriso que, mais branco, impossível”.

Todas as 3ª-feiras [é hoje!], Obama supervisiona pessoalmente uma rede terrorista mundial de drones que esmagam gente “como insetos”, pelo mundo, os que acorram para socorrê-los, os que se aproximem para chorar os mortos e quem mais passe por ali.

Nas zonas de conforto do ocidente, o primeiro presidente negro eleito na terra da escravidão sente-se muito bem, como se só o fato de ele existir já fosse prova de progresso social e apesar das pegadas de sangue que se veem por onde ele pisa. O servilismo com que os norte-americanos curvaram-se ante o símbolo que acreditaram ver na extraordinária eleição de Obama destruiu o movimento antiguerra nos EUA.

Na Grã-Bretanha, o golpe das imagens falsas e de falsas identidades políticas deu menos certo. Lá, parece, começa algum movimento de consciência. Mas que se apressem. Os juízes de Nuremberg foram bem claros: 

Qualquer cidadão tem o direito de violar leis domésticas para impedir crimes contra a humanidade e contra a paz. 

Toda a honra ao povo da Síria e a incontáveis outros. Os norte-americanos temos muito a aprender com eles.


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[*] John Pilger - nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Awardna área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor-Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.



- A partir de:  redecastorphoto